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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Trabalhar com o direito à dignidade espezinhado !

Trabalhei mais de uma década, num hipermercado. Passei por duas empresas, por isso sinto que estou habilitada a falar das condições de trabalho neste sector, na perspectiva pessoal.

Imagem do Blog Thiago Capuano.

hipermercado.jpg

No início do milénio, o Carrefour oferecia salários acima da média e possibilidade de carreira. Isto tornava o trabalho interessante (para além do facto de trabalhar com público que apesar de difícil é uma fonte de aprendizagem inesgotável e interessante). Em contrapartida pedia dedicação.

 

A dedicação era dada aceitando horários com rotações desconhecidas e feitas à medida da necessidade imediata, era demonstrada com polivalência nas funções executadas e abdicando de direitos legalmente protegidos pela lei.

 

Nós fazíamo-lo conscientes. Uma consciência demasiado jovem e com muita falta de experiência no mercado de trabalho. Mas, as coisas corriam mais ou menos bem, porque não existiam da parte da maioria outras responsabilidades (familiares, por exemplo), o ordenado permitia viver com dignidade e a possibilidade de crescer na carreira era real.

 

Os anos correram e instalou-se a famosíssima crise económica mundial. O Carrefour retirou-se do país. Os seus activos foram comprados por uma empresa nacional com reputação no mercado.

 

E os problemas foram ganhando outra forma. Os funcionários foram introduzidos nos valores da nova empresa sem nenhuma formação e os que a tiveram colocam em causa a sua qualidade (e temos de subtrair os que foram colocados na rua de forma desleal). Reinou o espírito do “desenrasca-te se puderes”. Tivemos logo todos a sensação a “nacional”. O espírito “desenrasca-te” acreditem que é português. 

O tempo passou e algumas coisas começaram a ganhar forma:

  • O primeiro foi a distância entre os funcionários da cúpula da empresa e os que realmente geram o dinheiro (os funcionários da loja, da base (o gemba)). Os benefícios vão desaparecendo há medida que se desce a pirâmide.
  • Os salários que até aí eram acima da média foram congelados até ao estrangulamento da dignidade. Ilegal? Não, mas desleal com certeza.
  • Os salários diminuíram, mas aumentaram a exigência na produtividade e na polivalência ao mesmo tempo que não se respeitaram horários e se passou por cima de direitos estabelicidos.
  • A possibilidade de crescer na carreira desapareceu quase por completo. As formações foram substituídas por assinaturas em folhas sem assunto para satisfazer a burocracia e não para melhorar o desempenho do funcionário. Eles depois colocavam o assunto na folha rosto (que conveniente!?).
  • Os contractos passaram à precariedade completa. Realmente não vale a pena apostar muito em formação quando se sabe que o funcionário vai ficar apenas uns meses. Logo outro entrará para o substituir. Nas caixas a formação era muito simples: “Estás a ver estas teclas? Ok. Vês a tua colega a trabalhar duas horas e depois “desenrasca-te”."(Estão a perceber o uso do desenrasca-te?).
  • O desrespeito pela saúde passou a ser prático constante: horas de almoço encurtadas, intervalos de descanso desrespeitados, proibição do consumo de água durante a jornada de trabalho (cujo intuito nunca foi muito bem explicado, mas deduzo que fosse para diminuir a necessidade de ir à casa de banho), uniformes de péssima qualidade que faziam suar e não protegiam do frio porque o ar condicionada era desligado para a poupança, exigência em relação ao tipo de sapatos quando o dinheiro que os comprava era do funcionário (aqui eu tenho um trauma e uma discussão interna com a direcção da loja, porque eu acho que se têm exigências então têm de fornecer o equipamento. O salário é baixo e ainda exigem que o usemos para comprar material para trabalhar?).
  • Alargamento do tempo de abertura dos hipermercados com a promessa de aumentar o emprego. Sabem o que realmente aconteceu? Depois do folclore inicial e eliminados os contractos de pessoal extra, os mais antigos viram os horários e as funções alargadas (a polivalência).

Trabalhar num hipermercado passou a ser aquilo que sempre tinha ouvido, mas que nunca tinha sentido na empresa anterior: passou a ser um emprego precário e sem futuro (leiam aqui outro testemunho).

 

Mas, num mundo onde o dinheiro ainda fala mais que as pessoas, estas empresas foram crescendo à conta da exploração da mão-de-obra e da exploração dos seus fornecedores.

 

Aproveitaram a crise para benefício próprio e assim justificar junto dos explorados a falta de vontade de lhes dar condições de trabalho dignas, enquanto dividem os lucros chorudos nas mesas de accionistas. Dinheiro atrai dinheiro, dizem. E sou da opinião que dinheiro compra Poder, mas quando esse Poder se concentra num grupo restrito, estrangula a economia e vira veneno para todos.

Os explorados, foram de tal forma estrangulados que sussurram mas não sabem o som da própria voz.

Os sindicatos, que ainda lutam vêm a sua acção ser subtilmente condicionada nas lojas, quer através de imposições que os impeçam de chegar aos trabalhadores, quer através da “chantagenzinha” aos trabalhadores que no desespero se sindicalizam esperando ter alguma ajuda na preservação dos pouco direitos que ainda tem.

 

Amanhã marcou-se uma greve, que deve ser apenas simbólica e sem grande impacto. Os patrões estão tão confiantes no seu poder de domínio que marcaram promoções “loucas”, para o mesmo dia da greve, para o Dia do Trabalhador. Este dia é assinalado, porque em 1886 as lutas por melhores condições de trabalho levaram pessoas à morte. Muitas conquistas foram feitas entretanto e trata-se de uma ironia o que se vai passar  este dia 1 de Maio de 2015, entramos em retrocesso.

E temo que mais uma vez, os patrões demonstrem o seu Poder, sobre os direitos dos trabalhadores.

 

Amanhã o mais provável é os funcionários marcarem presença para receber o aperto de mão do director que só aparece nesta ocasião para medir o seu poder e vem acompanhado do RH, porque nem o nome das pessoas deve saber. A distância alimenta a frieza das decisões que tomam!

 

Num país que discute a natalidade, isto devia ser inadmissível. Nenhum pai ou mãe podendo, vai trazer um filho ao mundo num país sem futuro ou cujo futuro seja este tipo de escravidão disfarçada por maus salários e sem estruturas sociais de qualidade.

 

Conto-vos mais um pouco da minha experiência, o de mãe trabalhadora de um hipermercado (deve ser parecido noutros sectores).

Quando tive o meu filho, entrei em conflito com a empresa, porque exigi horários mais compatíveis com a família. Não pedi aumento (que merecia), não deixei de desempenhar as minhas funções, apenas pedi um horário compatível com o de uma criança e por que existia essa possibilidade visto que tinha muita gente que me poderia substituir (espírito de polivalência). Recusaram-se. Usaram todos os subterfúgios possíveis para me fazer pedir a demissão (os especialistas chamam-lhe pressão psicológica ou assédio moral). Difícil de provar (que conveniente), mas não impossível.

 

Azar o deles, sorte a minha: sofro de um “mau feitio” que quando me vejo acuada esperneio, não cedo. Mas nem todos são assim, nem todos têm a perseverança de esperar que o barco fique onde queremos que esteja, nem todos sabem informar-se, nem todos têm coragem de usar a informação (prova disso é as constantes greves sem uma comparência significativa das pessoas, que preferem cruzar os dedos e rezar “eles que lutem por mim, por favor”). E apesar do "mau feitio", ninguém me livrou do sofrimento. Sofri, chorei, senti-me injustiçada, tive de me questionar mil vezes se valia a pena, a depressão foi uma ameaça real. Eu era uma mãe com um bebé de meses e muitas noites sem dormir (pelo bebé naturalmente e pelas preocupações).

 

Eu saí da empresa, um par de anos mais tarde, quando achei que o podia fazer. Tive sorte e mau feitio suficiente para aguentar a pressão. Valeu a pena? SIM. 

 

Deparo-me na Europa, onde Portugal se insere, com outros cenários um pouco mais justos e muito mais saudáveis para a economia. Que também podiam ser aplicados em Portugal, se a ambição de uns poucos não atropelassem constantemente os direitos dos outros todos. (Começo a convencer-me que países como Portugal são usados como cobaias para algumas políticas. Espero que as leis do trabalho portuguesas não sejam exportadas, porque senão o futuro será negro).

 

Por essa Europa fora, o horário de trabalho por jornada é de 7h. As lojas fecham aos Domingo e Feriados e no máximo às 21h durante a abertura diária. As licenças de maternidade são de quase 1 ano e os benefícios multiplicam-se durante o crescimento dos petizes. Os planos de saúde existem. A polivalência não é requerida, cada um especializa-se na sua função, desempenhando-a com mais qualidade e permitindo mais aberturas de postos de trabalho. E o ordenado ronda acima de 1000€. 

(As economias afinal funcionam se as pessoas forem pagas com dignidade, o oposto daquilo que nos têm feito acreditar em Portugal. Muitas pessoas a poder ir comer ao restaurante, sustentam mais postos de trabalho. Se tivermos apenas um grupo de elite com essa possibilidade, teremos menos postos de trabalho. Parece matemática pura! Economias onde o dinheiro chega apenas para alguns, são economias cujo objectivo é garantir o Poder e sabemos pelo que nos conta a história Mundial o que acontece quando o Poder se concentra: GUERRAS!)

 

Como é que fazem estas economias que pagam com dignidade aos seus trabalhadores? Não fazem promoções? Vendem mais caro?

 

Sim, fazem promoções. Vendem um pouco mais caro e podem (os ordenados gerais permitem poder de compra). Assim garantem dignidade aos seus funcionários e aos seus fornecedores. E uma economia que também se vai alimentando nas trocas internas sem depender tanto das exportações.

 

E como diz o sindicato, estas empresas não pagam mais por que não querem. Os lucros aparecem no fim do ano. Os gestores vivem bem. E se podem dar milhares de €'s, em descontos aos clientes e cometer ilegalidades (que foram largamente publicitadas e por isso espero que as autoridades estejam atentas e cumpram a sua função), também podiam melhorar as condições dos funcionários e fornecedores.

 

Esta greve devia juntar funcionários e fornecedores, para exigir melhores condições aos monopólios que gerem os hipermercados.

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