Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Escolhas de Casal

  Desenho de Julia Bax/UOL, no site BOL Noticìas

- Manel Pedro! Vais tomar café antes de sair? - pergunta Maria Aerdna da cozinha enquanto prepara o seu pequeno almoço. Do quarto, ele responde ao mesmo tempo que faz a camisa deslizar pelo braço:

- Hoje vou e também quero torradas. Como não tenho de passar pelo escritório agora de manhã, tenho mais tempo para comer, pode ser que stress menos durante o dia.

-Ok.

Maria Aerdna põe o pão na mesa e o café. Manel Pedro senta-se. Estica-se para chegar ao açucareiro, ela ajuda-o colocando-o junto a ele. Imaginando que a seguir ele iria precisar da manteiga, também a chegou para junto dele. 

- Esta noite não dormi muito bem. - comenta ela.

- O que é que se passou?

- Estive a pensar. Ouvi nas notícias, outra vez, que é preciso aumentar as taxas de natalidade e fiquei a pensar.

- E isso tirou-te o sono? - pergunta ele de sobrolho franzido.

- Não me tirou o sono, apenas o adiou enquanto me vagueava pela mente, que estamos há tanto tempo juntos, temos o nosso cantinho, os nossos empregos. Não seria a hora?

Ele não responde logo, mas quando o faz a voz sai marcada, profunda, preocupada.

- Maé, é verdade que agora estamos a conseguir viver com alguma dignidade, mas a casa não está paga e o emprego já não depende só do nosso desempenho. A economia e os "senhores" que julgam que a dirigem é que vão ditar se nós vamos ser capazes de pagar a casa e se vamos ter direito a trabalho no futuro. A escravidão já esteve mais longe.

- Sim, mas o futuro é sempre incerto. Não existe forma de saber o que se vai passar! Nunca existiu.

- Olhando a actualidade vemos que não se pode confiar num futuro para uma nova geração quando os próprios governantes nos mandam ir buscar oportunidades para fora das nossas fronteiras. Já viste o estado das instituições que nos dirigem?

- Tens razão. Ontem pensei nisso. Um filho é o futuro, a continuação daquilo por que nos esforçamos todos os dias, a razão para construir um património que perdure. Agora não sabemos sequer, se vamos poder estar no nosso país, quanto mais construir um legado para que os nossos filhos continuem.

- O que temos de fazer agora é sobreviver ao dia a dia e esperar os acontecimentos. - ele estende a mão para acariciar a dela.

- A situação de países da África e da Ásia sempre me pareceu triste e desesperante mas longínqua. Agora creio que já não é assim tão estranha, parece que começamos a criar formas de entendimento e falo no mau sentido. Começamos a perceber o que é viver sem esperança quando deveria ser ao contrário, eles é que deviam aproximar-se dos nossos níveis de esperança.

- Não acredito que seja assim tão grave, ainda. Mas não é um bom caminho.

- Adiar, será a solução imediata. - diz ela com voz triste e apagada.

- Isso deixa-te triste? - pergunta preocupado.

- Sim. Eu não acredito que todos temos de ter filhos. Isso deve ser uma opção. Até acredito que existem pessoas que deveriam estar quietinhas, porque não lhes falta só condições, pura e simplesmente não têm jeito para essa tarefa. Mas eu acredito que nós íamos dar conta do recado. Até, porque me é difícil conceber tanto esforço num futuro e depois não ter alguém que o perpetue após a minha morte.

- Não fiques triste, logo veremos. Eu não sonhei sempre ter filhos, mas de alguma forma sempre os perspectivei como parte da minha vida. Não sei se por educação, se por tradição, se por vontade própria mas algures no caminho estão lá.

- Então também pensas nisso? - diz ela apaixonada.

- Sim. Mas não é o momento. - debruça-se para ela preocupado.

- Mas olha que vai haver baixa de impostos e subsídios para os futuros papás. - comenta ela.

- Pois, mas os filhos não se criam com esmolas do governo.

- Já tiveste algum? - pergunta surpresa com o tom de conhecimento de causa que ele coloca.

- Não. - responde com um sorriso travesso que a encanta. - Mas passa no supermercado e visita o corredor das fraldas e do leite e multiplica. Depois vê as roupas e sapatos, junta-lhe os médicos e a formação escolar. E como eles precisam de ser estimulados, tens de pensar em brinquedos. O mais provável é que fique mais barato comprar um carro de luxo. E claro, um filho precisa de disponibilidade: acreditas que a passar dez horas no serviço, a vais ter? Eu não.

- Já pensaste no assunto! - diz satisfeita.

- E o que é preciso do Governo são estruturas sociais sólidas e não esmolas com nomes técnicos. Quando isso acontecer, teremos os filhos que quisermos e a tão "amada" economia funcionará por si. Sem necessidade de recursos e artimanhas manhosas.

- Concordo. E na educação, devia ser inserido uma matéria multidisciplinar que ensine as nossas crianças e jovens a conhecer-se e ao meio em que estão inseridas, para quando tiverem de escolher, o façam conscientes e não à espera da "sorte". Andam com a introdução da Educação Sexual há tanto tempo de um lado para o outro por causa de pudores e ela é tão urgente nas escolas. Para os futuros pais também deviam existir formações, a preparação para o parto devia ser obrigatória. Teríamos mais crianças saudáveis.

- Dás-me razão, então?

- Sim vamos esperar. Vamos ter fé, que o país se vai acomodar como deve, para que possamos ter os nossos filhos e educá-los como merecem. Sem sobressaltos.

Ele dá-lhe um beijo e despede-se. Ela vai-se preparar. Está a chegar a hora de ir trabalhar. Mais um dia igual a tantos outros.