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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Eu devia ter saudades do tempo em que era magra ? Ou não?

cronh.jpg

 Imagem no site: L'OBS, J'ai la maladie de Crohn.

Aerdna sai do banho e pára a olhar para o espelho grande da casa de banho. Apesar de embaciado, percebe-se um vulto. Aproxima-se e passa o toalhão no espelho. A sua figura fica definida. Coloca as mãos na barriga. E apanha um pneuzito! E outro! Roda e vê a sua figura com mais curvas do que aquelas que estão definidas nos manuais da imagem actuais. E recorda:

 

Fui uma adolescente de 1.76m e 63kg. Não era gorda, apesar de não ser naturalmente estimulada para o desporto e a dieta ser caprichosa. Ou seja comia o queria, quando queria e podia. Na adolescência, não conheci borbulhas, e o cabelo castanho ondulado com madeixas douradas do sol era farto como o do meu pai.

 

Na passagem da adolescência para a idade adulta, algo se passou. Por genética, por maus hábitos alimentares, ou por qualquer razão até hoje desconhecida, comecei a emagrecer.

 

Não foi por dietas feitas para o efeito. Até porque tinha coisas mais interessantes com que ocupar o tempo e mente. Era tempo de grandes desafios: a saída do ninho, o primeiro emprego, descobrir quem sou e o que faço aqui.

 

Começamos a ver o visor da balança a marcar 60kg, 59kg, 58kg, e a vitalidade a ir embora e a chegar a tendência para o mau humor. Mas as pessoas à minha volta só tinham elogios (hipocrisias, hoje reconheço): está cada vez melhor, que elegante!

 

O tempo passa e a balança 55kg, 54kg, 53kg, e já não é possível comer sem ficar mal disposta. Começa a tentativa de perceber se é algum tipo de alimento que me faz ficar assim tão mal disposta, que me provoca tanto mau estar abdominal e me faz procurar a casa de banho, uma e outra vez.

 

O primeiro eliminado é o leite. Obvio. Mas o leite está presente em praticamente tudo, o que se come. E a dieta cada vez mais restrita contribui para o continuar da perda de peso: 52kg, 51kg, …

 

E ainda existem umas alminhas que insistem: Que elegante! Que bonita! Que bem que te fica!

 

Eu pensava para mim, não deve ser nada de grave. Afinal ainda me elogiam. Mas o mau estar é cada vez pior e outros problemas se somam: o aumento de idas à casa de banho atinge níveis perto do ridículo, à má circulação sanguínea, o cansaço, as dificuldades em dormir.

 

É necessário procurar ajuda médica! Mas a médica de família desvaloriza e diz que é uma intolerância à lactose. Para ela o problema resolve-se deixando de lado o leite. Há 15 anos atrás não existiam muitas alternativas ao leite. E mesmo assim não estava a resultar.

 

O médico de clinica geral entretanto procurado particularmente resolve fazer umas análises. Como na altura eu tomava a pílula, elas acusaram alterações dos hormônios da tiróide. Foi medicado Tirax, para resolver o problema. A adaptação ao medicamento foi horrível.

 

E o meu peso continuava: 49kg, 48kg, …

 

Não estava a resolver. A família começa a preocupar-se a sério. O companheiro, já não sabe o que fazer! E ainda há gente que continua a elogiar o maravilhoso monte de ossos e a dar conselhos de dietas e exercícios que se deve fazer para manter a forma.

 

Nesta altura do campeonato o mau humor já virou mau feitio. E deixo de ter paciência para ouvir algo parecido a estupidezes. As pessoas afastam-se.

 

Separado o trigo do joio, as pessoas que realmente se importavam tentam ajudar a perceber o que se passa. Mudei-me para casa da minha mãe outra vez.

 

Um dia de dor mais forte leva-me ao hospital, depois de uma tarde em observações, resolvem operar-me ao apêndice. Passo três dias no internamento e pela primeira vez em muito tempo, sinto-me bem. Tenho fome outra vez.

 

Mas é sol de pouca dura. Logo volta o cansaço, a má disposição, … Volto ao hospital um mês depois para a consulta pós operatória. E tenho a pior experiência da minha vida num hospital:

 

Com lágrimas nos olhos, e apenas 46kg, que já não me permitiam sequer subir a avenida sozinha sem apoio, peço ao director de cirurgia que me atende que me ajude. Não me deixa quase falar, e despacha-me com um: “Se os sintomas continuarem, procure as urgências”. Na altura o meu estado anímico era tão baixo, que saí a chorar e com ajuda da colega que me acompanhou voltei a casa, para a cama. Já não conseguia mais nada. (Mais tarde entendi, que depois da cirurgia eu deveria ter mostrado o meu “agradecimento” e como não o fiz, não me estendeu mais a mão, como se não fosse essa a sua missão para a qual é bem pago).

 

 O conselho de uma senhora amiga leva-me a visitar um endocrinologista. Com a simples verificação manual do meu pescoço me disse que eu não tinha nenhum problema na tiróide. No hospital, nada detectaram! Feitas as análises como contraprova, verificasse que o médico tinha razão. Há que iniciar o desmame do Tirax.

 

Mas a verdade é que com o tempo não havia refeição que eu não vomitasse. E começo a pensar na morte. Seria assim tão morrer. A minha família e o meu companheiro provavelmente ficariam tristes durante algum tempo, mas depois continuariam as suas vidas. O tempo continuaria a correr. E eu? Provavelmente seria apenas má comida (pela forma péssima como me sentia) para insectos rastejantes.

 

Mas eu não queria morrer. A vida ainda me devia muitas experiências. E eu nasci para quê? Para nada? Não teria alguma coisa a acrescentar ao mundo? Pelo menos à parte do mundo que me rodeia?

 

Estes pensamentos vão rondando a minha cabeça. O tempo passa e tudo vai piorando. Sinto-me mal. Por mim, e pelos que me rodeiam. Vejo as pessoas preocupadas, impotentes, a fazerem o que podem e o que não podem sem terem a certeza de resultados.

 

Mas nunca os meus ossos reluziram tanto, como nesse ano: 2004.

 

O ano vai a meio, e uma senhora amiga consegue-me uma consulta num gastroenterologista chamado Dr. Jorge Silva. Aqui fica 10 anos depois os meus mais sinceros agradecimentos.

 

Não tendo à sua disposição, meios para me ajudar, no estado em que eu já me encontrava, sem me pedir nada em troca (nem a consulta cobrou) enviou-me a um colega seu.

 

Foi a minha salvação.

 

O meu aspecto era tão medonho, que entro na sala de espera do consultório deste médico, apoiada pelo meu companheiro de um lado e a minha irmã do outro, e apesar de cheia de pessoas à espera, ninguém se opôs a que eu passasse à frente.

 

Nesse mesmo dia, entro nos HUC, na enfermaria feminina da “gastro”, onde uma equipa de médicos fantástica, volta a semear esperança em mim, e nos que me rodeavam. Fico a cargo do Dr. Francisco e da Dra. Helena.

 

O internamento é longo, e com altos e baixos. Fico a ser alimentada por via intravenosa cerca de duas semanas. A teoria de Pavlov ganha todo o sentido para mim: cada vez que eu ouvia o carrinho que distribuía as refeições, nascia-me água na boca. O meu estomago vazio reclamava: tinha fome. Depois de uma série de exames, com resultados negativos confirma-se o diagnóstico: Doença de Cronh.

 

Tinha lido algo numa revista, acerca do assunto, mas mesmo assim fiquei surpreendida, preocupada, com medo.

 

A doutora Helena, convida-me ao seu consultório e perde algum tempo a explicar-me do que se trata. Responde às minhas perguntas (poucas na altura). E disponibiliza-se para o que for preciso. Depois da experiência com o director da cirurgia do Hospital de Aveiro, o meu respeito e confiança na classe médica volta a ficar intacta.

 

Inicio tratamentos, e chega a hora de voltar a tentar alimentar-me normalmente, visto que a dieta líquida que vinha a fazer há alguns dias, estava a ser tolerada.

O Dr. Francisco diz-me:

- Se correr tudo bem, vais passar o fim-de-semana a casa!

Estou feliz. Como com vontade. Sabe-me a manjares dos deuses! Café com chocolate!

Não tarda para começar a identificar sinais de má disposição. Faço o que posso para não vomitar. Se eu vomito, o médico não me deixa ir a casa. Estou farta de dividir o quarto com desconhecidas, do barulho da noite, com as arrastadeiras, urgências e sei lá que mais.

Não consigo. Vomito toda a refeição. O enfermeiro dá conta. O médico não me quer deixar ir a casa!

Choro, choro, e queixo-me a quem me visita.

Aparece a Dra. Helena.

- O Dr. Francisco manda dizer, que se prometeres portar-te bem, durante o fim-de-semana, ele dá-te a tua dieta liquida e deixa-te ir. Segunda-feira às nove encontramo-nos. Ele não quer colocar a vida dos outros utentes em risco, e tu não paras de chorar ainda nos afogas!

Sou feliz outra vez. Ok. Vou passar o fim-de-semana a líquidos, mas é melhor que nada.

 

Antes de terminar este internamento, é descoberto o que me faz vomitar: uma estenose no duodeno. Primeira solução: operar.

 

Começasse os procedimentos: as análises, o electrocardiograma, eu continuo muito magra (tinha anorexia provocada pela falta de peso), visita ao anestesista. E finalmente o cirurgião aparece para falar comigo acompanhado pelo Dr. Francisco.

 

É explicado o procedimento e apresentada uma alternativa. Muito menos invasiva: através da endoscopia colocar um “balão pneumático” que uma vez cheio iria empurrar a parede o intestino “fibrada” de forma a reabri-la. Tinha os seus riscos, mas menores que uma cirurgia com anestia e barriga aberta, em que me tirariam uma parte importante do intestino e isso poderia limitar ainda mais a minha saúde. Tendo em conta que é a parede intestinal que absorve os nutrientes.

 

Explicação bem dada, a escolha é minha. Tenho medo. Eles percebem isso. E ajudam-me: o escolher tentar a endoscopia não inviabilizava a cirurgia caso fosse necessário.

- Ok. Vamos a isso.

 

Volto a casa, a comer normalmente apenas com alguns alimentos a evitar: leite e derivados por causa da intolerância à lactose. E por conselho, deveria fazer uma dieta pobre em fibras mas o mais variada possível.

 

Ao início tudo foi feito com muito medo. Os médicos foram uma grande ajuda, a informação disponibilizada pela APDI, e as pesquisas na internet apoiaram.

 

Ainda demorou cerca de dois anos a acertar com as doses de medicamentos apropriadas para o meu caso. Mas nunca mais uma crise teve as proporções da primeira. Devido ao uso da cortisona no início do tratamento, inchei muito, como me abriu o apetite comia muito e comecei a engordar, e o meu rosto ficou em carne viva com tanta borbulha, a minha barriga passou a parecer constantemente grávida, e o meu cabelo a desaparecer. A boa notìcia é que tem existido avanços importantes no tratamento desta doença.

 

Eu deveria ter entrado em depressão com este meu novo aspecto, não?

 

Não. Voltar a sentir vitalidade. Voltar a sentir-me independente. Ver a tranquilidade invadir os rostos dos que me rodeiam. Valem bem, meia dúzia de borbulhas e uns quilinhos a mais.

 

Estou muito orgulhosa do meu 1.76m distribuídos pelos meus 80kg. (Depois da gravidez ficou praticamente impossível voltar atrás).

 

Se calhar sou doida! Mas estou feliz!