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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Explicar ao meu filho de 6 anos o que foi o 25 de Abril que eu não vivi...

Estou longe de Portugal, mas faço questão de tentar manter viva a memória do nosso país na vida do meu filho. Não o faço por saudosismo, faço-o por uma questão muito prática: ele é português e a ligação ao país de origem vai existir sempre, seja por questões sentimentais e familiares ou por questões legais, tenho a obrigação como mãe de a manter essa ligação minimamente oleada.

Ele tem apenas 6 anos e iniciou a primária num país diferente onde o idioma é diferente, a cultura é diferente, onde lhe vão dar uma visão do mundo com uma perspectiva diferente. O que é excelente em termos educacionais na minha forma de ver, desde que eu faça o esforço de lhe mostrar a nossa visão também.

Como estou longe, só reparei que dia era hoje, quando no caminho para a escola vi a data no quadro electrónico da vila (25/04/16). Senti o impulso de lhe contar que hoje era um dia muito importante para Portugal e as perguntas, naturais da idade, não se fizeram esperar:

- Porquê?

- Neste dia, no ano de 1974, há quase meio século atrás, os portugueses conquistaram finalmente a sua liberdade. Os militares ao som de uma música-chave que tinham combinado passar na rádio e que se chamava “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso (trauteei um bocadinho), iniciaram manobras para ocupar os principais pontos de Poder da capital e assim afastar as pessoas que não nos deixavam ser livres.

Imagem do blog "Biblioteca Escolar da Escola Dom Paio Peres Correia Tavira", onde contam pormenores deste dia, para quem quiser uma consulta mais detalhada. 

-Como?

16_25abril.jpg

-Em segredo, tinham combinado as senhas e as formas como se iriam organizar. A música era a senha que indicava o início. Pegaram então nas armas e nas máquinas de guerra e saíram para as ruas de Lisboa, de forma a surpreender os responsáveis pela nossa falta de liberdade e assim afastá-los rapidamente sem necessidade de usar a força. Foram tão bem sucedidos que em vez de saírem tiros das armas, foram colocados cravos vermelhos nos canos. As pessoas foram afastadas, os militares e o povo festejou e iniciou-se um processo de organização de liberdade.

(Sentia que cada vez mais dava pormenores que ele não ia entender, mas que não tinha tempo de esclarecer, a escola aproximava-se.)

- O que é a liberdade?

(Óbvio que ia fazer esta pergunta, ele não conhece a falta dela, para conseguir alcançar o valor da sua importância. Assim como eu um dia também tive de aprender o conceito sem saber exactamente o que era na prática. Tentei!)

- Hoje vivemos em liberdade, porque podemos escolher o que fazer e o que dizer. Depende de nós e do esforço e empenho que pomos nas coisas que decidimos fazer, conseguir ou não. Em liberdade, as pessoas têm acesso às mesmas oportunidades. Se decidires um dia ser astronauta nada te impede, apenas vai depender da sorte e do teu empenho. Quando vivemos sem liberdade, são criadas regras que nos limitam as possibilidades impedindo que possamos trabalhar pelos nossos sonhos e desejos. Quando se vive sem liberdade não são apenas as nossas escolhas que ficam limitadas por leis e abusos de poder, é também a nossa forma de expressão. Hoje, se não concordas com alguma coisa podes expor a tua ideia sem medo de castigos, antigamente as pessoas que diziam o que pensavam que não estava de acordo com o que estava nas regras eram severamente castigadas.

 

Chegamos à escola. No caminho de volta a casa, sinto que dei informação demais e de uma forma confusa. Gostaria de ir com ele à biblioteca, procurar documentos e livros sobre o assunto e pesquisar com ele, mas devido à distância não vai ser possível. Sobra a net, para logo quando ele chegar, lhe mostrar de que se trata o confuso discurso que lhe fiz esta manhã.

 

Do dia da Liberdade português recordo obviamente dos factos históricos que aprendi na escola e que o meu pai contava com o prazer de um apaixonado por História (aos 60 anos ainda sabia o nome dos Reis de todas as Dinastias Portuguesas, coisa que eu aos 36 anos só sei depois de uma pesquisa).

Mas, o que melhor recordo são as histórias da minha mãe, que não estão arquivadas em lado nenhum. Foram as minhas primeiras referências a esse dia. Ela que nessa altura vivia por cima do café da praça da aldeia. A minha avó nesse dia (ou nesses dias próximos) comprou um televisor. Desses antiquíssimos a preto e branco que ocupavam imenso espaço. As pessoas que iam ouvindo na rádio o que se ia passando na capital começaram a juntar-se na praça da aldeia. A minha mãe e a minha avó iam seguindo a emissão na Tv, e sempre que havia novidades iam à varanda actualizar as pessoas concentradas na praça e no café.

Não vivi esse momento, porque nasceria meia dúzia de anos depois em total poder e uso da minha liberdade. Que com o tempo aprendi não só o seu real valor, mas também os seus limites: o respeito à liberdade alheia. Se digo o que penso, tenho de estar disponível para ouvir os outros, de outra forma, estou a limitar-lhes a liberdade e a ser injusta.

 

Hoje sei que existem outras formas de limitar liberdades que são mais subtis e que são colocadas em prática de forma lenta e silenciosa. Numa tentativa de impor um sistema do qual apenas alguns possam usufruir realmente. Fazem-no como reza a história da rã na panela: a rã aquecida lentamente na água não se vai dando conta que está a ser cozinhada até que já não tem forma de escapar, e o sistema capitalista actual que se sobrepôs à democracia, está a fazer-nos a mesma coisa.

A grande diferença é que naquele 25 de Abril de 1974, as pessoas uniram-se nas praças pacificamente a lutar pelas mesmas causas. Hoje em dia, uma coisa o capitalismo e o marketing conseguiram: dividir-nos por tribos e grupos de forma a enfraquecer de forma quase mortal a nossa capacidade de luta. É quase cada um por si, contra estruturas enormes, bem organizadas, bem informadas, que nos vergam à sua vontade, nos matam a casa (o planeta) e praticamente nos têm escravizado.

Antes do 25 de Abril, não podíamos opinar sobre a gestão do país e do dinheiro dos nossos impostos. Hoje podemos fazê-lo, mas não nos informamos convenientemente de forma a ter uma opinião que possa fazer diferença.

Antes do 25 de Abril, as pessoas viviam sem dinheiro e com fome. A minha mãe conta que quando conseguia as aparas do queijo na loja da aldeia, que comia escondida para o dono não ver, era como se lhe tivessem servido um manjar. Hoje desperdiçamos comida que compramos pelo simples acto de comprar, como se o pouco dinheiro que temos nos ardesse nas mãos e nem percebemos que esse descontrolo consumista que assola a maioria de nós é o que dá real poder a essas estruturas que nos fazem trabalhar sem respeito pela nossa condição humana, em troca de uns míseros euros para irmos a correr gastar.

 

Conquistamos a liberdade há 42 anos atrás, mas ainda não sabemos viver com ela! Ainda não aprendemos que ser livre exige responsabilidade e respeito, tanto individual como social. Quando aprendermos isso, talvez possamos finalmente viver plenos, LIVRES e em PAZ.

 

Enquanto esse processo ocorre lentamente, lutando contra as imposições capitalistas, vou-me dedicando a manter viva a memória do meu filho e a dar-lhe os melhores exemplos que possa, para que aprenda a ser PLENAMENTE LIVRE, responsável e respeitoso.

Bom Feriado a todos.