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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Mestres do abandono !

Ponderei muito antes de falar deste assunto: os refugiados. E fi-lo, porque parece-me um assunto demasiado complexo, para o tratar com ligeireza. Tenho receio de ser injusta, redundante, superficial, mas vou tentar expor o que passa por esta minha mente acerca deste assunto.

 

Tenho assistido ao longo da minha curta vida, à facilidade como alguns de nós, nos descartamos daquilo que nos incomoda, chateia, trava, embaraça, amedronta,... Fazemo-lo com uma crueldade cirúrgica, e uma limpeza de consciência asséptica.

 

Os exemplos são tantos que listá-los é quase uma loucura, que vou tentar cometer :

 

  • Os pais que abandonam os filhos nas mãos de terceiros (amas, creches, escolas, avós, vizinhos, actividades múltiplas, …), despedindo-se da sua função de educar, com a desculpa de que precisam de trabalhar, quando na realidade não sabem é gerir tempo, perdem esse tempo a tentar igualar-se a outros em vez de descobrir e viver o seu papel nesta vida ;
  • Os filhos que abandonam os pais à sua sorte, à solidão, aos cuidados de terceiros que nem sempre são os melhores, com a mesmíssima desculpa e que na realidade sofrem de falta do valor da gratidão ;
  • Os donos de animais, que abandonam e maltratam os seres que um dia se dispuseram a cuidar apenas por capricho, com todas as desculpas e nenhuma válida, e o único que demostram é falta de compaixão e um tremendo egoísmo ;
  • O chefe que não hesita em largar ao desespero do desemprego e incerteza de vida o funcionário que com ele colaborou na lealdade mais pura, apenas por ajustes financeiros e interesseiros, mostrando que não vale nada mais que o “lugarzinho” que ocupa;
  • O governo que condena o seu povo a uma vida sem esperança e dignidade, com desculpas económicas, quando na realidade o que ocorre é má gestão e corrupção activa, dando um retrato triste dos valores sociais;
  • O vizinho que critica quem não faz nada pelos outros, mas sabe que a família da esquina passa necessidades e não se preocupa em ajudar, demonstrando a falta de qualidade humana de que padece;
  • A família da esposa que é maltratada, que a abandona à sua sorte em nome das aparências, e que demonstra que os grupos mal formados são uma praga que contaminam perdendo a sua razão de existência: apoiar.
  • O pai que abandona a ajuda à concretização do sonho do seu filho, porque este não tem o “glamour” estabelecido socialmente ou não é suposto dar dinheiro, falando esta atitude por si só da qualidade deste pai;
  • A amiga que está presente em todas as festas, mas que desaparece do radar quando é preciso ajudar, deixando em evidência que não merece esse título de “amiga”;
  • O amigo que deixa de falar depois que mostramos que não concordamos com tudo o que diz e faz, não porque o tenhamos ofendido, apenas não é capaz de suportar uma conversa com outro que não tenha ideias copiadas das suas;
  • As pessoas que compram aos governos de povos que vivem indignamente e privados de liberdade, e que por estarem para lá dos nossos muros (fronteiras) ignoramos, demonstrando que solidariedade é uma questão de interesse;
  • Abandonamos o lixo sem pensar nas consequências;
  • E tantos outros exemplos…

 

A maioria de nós não suporta o que o frusta ou amedronta. Faltam valores sociais importantes a uma boa parte da sociedade (modelo educacional tem culpa), e isso impede que se alcance a Paz que tanto se deseja.

Quando nos confrontam, abandonamos em vez de enfrentarmos.

Abandonamos sem nos importar as consequências no abandonado. O que interessa é que fiquemos tranquilos, mesmo que vazios.

 

Os mestres do abandono são uma praga social!

 

O exemplo mais recente é o abandono à sua sorte e à morte de milhares de pessoas vítimas de uma guerra, para a qual sentem que não contribuíram assim como nós achamos que não contribuímos para esta crise económica que vivemos desde 2008.

Temos medo, estamos mal informados e queremos continuar confortavelmente assim. Do que não sabemos não podemos ser acusados, não é?

 

Sempre me irritaram as pessoas que perante uma situação fora do normal, criticam todas as atitudes que se tomem para a resolver, sem mover um dedo para tentar alguma solução. Deixam-se estar confortavelmente a lançar críticas, à espera do momento em que possam dizer: “Eu disse-vos.”

Pois disseste, mas fizeste pouco e isso faz-vos pelo menos tão culpados como os que tentaram e não conseguiram.

 

O mais indignante não é ter medo, isso é humano e cada um lida com ele como pode. O indignante é contagiar, ou tentar contagiar os outros com esse mesmo medo.

 

Tenho ouvido e lido textos carregados de medo, alimentados a preconceitos que podem ter consequências desastrosas se não forem contidos e reeducados.

 

Muitos dos medos, que assaltam as pessoas foram semeados pelos americanos (cobertura jornalística do 11 de Setembro, cinema, literatura, etc…) e imprensa duvidosa, que adjectivaram sem cuidado nem critério e criaram mitos, tais como:

  • Todos os gregos são caloteiros;
  • Todos os colombianos são traficantes;
  • Todos os árabes terroristas;
  • Todos os produtos chineses carecem de qualidade;
  • E que os portugueses são tremendos preguiçosos.

"Merkel sabe bem que a forma mais eficaz de conquistar apoio é a de apelar ao preconceito, às ideias feitas. O vendaval de despudorado preconceito, para não dizer de racismo antimeridional, que se tem desatado por essa Europa fora contra os gregos e contra nós próprios, portugueses, é um evidente sinal de como as crises económicas podem trazer à superfície o que de mais profundo encerra a cultura tendencialmente xenófoba e classista da Europa contemporânea." - Manuel Loff a 01/03/2012 no Público.

 

Sabemos que são mentiras generalizadas, mas o medo condiciona. E medricas condiciona medricas.

 

Se pararmos para pensar e informarmo-nos percebemos que “monstros” somos todos, com atitudes tão corriqueiras como abandonar o pai velhinho no lar sem o visitar ou pior numa casa sem condições, ou quando abandonamos o cão num qualquer terreno baldio para que não perturbe as férias, ou quando olhamos para a história e percebemos que o maior “anormal” da história nasceu na Áustria e reinou na Alemanha e respondia pelo nome de Adolf Hitler, ou aquele Sueco de nome Anders Breivik que por uma “loucura maquiavélica” matou 77 pessoas de uma forma cruel, ou apenas passar os olhos todos os dias nos jornais e perceber que sem escolher raça ou nacionalidade aparecem assassinos, violadores, torturadores, ladrões, corruptos e ….

 

OS REFUGIADOS foram abandonados pelo seu país em nome de interesses que levaram a uma guerra, da qual não têm culpa nem meios de a impedir. Depois foram abandonados por uma boa parte dos Estados vizinhos, que apesar de ricos e culturalmente parecidos, mostram pouca compaixão e ainda menor vontade de ajudar.

Apesar deste abandono pela sua origem e cultura, ainda seguem com esperança de continuarem vivos. O último que morre em todos nós independentemente da raça, cor, estatura, nacionalidade, fé, cultura, etc… é a esperança.

A esperança e a vida é a única coisa, que transportam consigo nas condições mais indignas e cruéis, mas continuam.

Coragem que é muitas vezes paga com muros, tiros, afogamentos, desidratação, morte, …

Entre estas pessoas que fogem do pesadelo sem saber o que vão encontrar, apenas na esperança que seja um bocadinho melhor estão velhos, doentes, crianças, jovens, mulheres, gente culta, gente com vontade de trabalhar, gente com sonhos, etc. …

 

Muitos de nós, não hesitou em mostrar solidariedade e união quando o Jornal “Charlie Hebdo” foi monstruosamente atacado e morreram 11 pessoas e outras ficaram feridas. Muitos de nós assumiu o logo “Je suis Charlie”, ou participou em marchas de união para condenar este ano que matou 11 pessoas. E muito bem. Agora que se sabe que morrem pessoas às centenas, nas águas que banham o Sul da Europa, alguns pedem que se ajude a que morram mais depressa com força militar, a que se abandone à sua sorte, a que se construam muros, ou se façam garrotes (como li recentemente).

 

Afinal o que somos nós? Quantos pesos e quantas medidas têm?

 

Não somos perfeitos. É verdade. E isso agora é desculpa para tudo? Para não se esforçar nas relações, para não se esforçar na vida, para não se esforçar nos estudos, para não se tentar sequer ajudar quem neste momento precisa?

 

Durante muito tempo a Europa tentou fazer de conta que não via, sem falar da América do Norte, que está sempre pronta para combater, mas nada mais que isso.

Durante demasiado tempo a União Europeia mostrou que não existe união entre governos. Eles partilham alguns interesses, nada mais do que isso. Durante um longo período deixou-se a Itália e a Grécia sozinhas, com as suas crises económicas e com esta crise humanitária, que chega às suas praias todos os dias. Não se quis saber.

Até que o problema cresceu, como evidentemente ia acabar por acontecer. Problemas desta magnitude não se resolvem sozinhos. E demoram a instalar-se, e depois se atrasamos na procura de soluções demoram ainda mais a resolver-se.

 

Mas é tão confortável fazer de conta que não é nada connosco, não é?

Esquecemo-nos sempre que quem manda neste planeta é a Natureza, por mais que embirremos com ela. E a natureza fez este mundo redondo e sem fronteiras. O que se passa para lá dos muros que criamos, mais tarde ou mais cedo afecta-nos.

 

Um exemplo recente do contágio que ocorre nesta bola é nas condições de trabalho na União Europeia, especialmente em Portugal. Durante décadas vimos a China crescer economicamente à custa da exploração laboral e humana, e fizemos de conta que não era nada connosco. Fomos preenchendo as nossas casas de produtos conseguidos através dessa mesma exploração (o que importava era ter) e agora que essa exploração acabou por ser importada para o mercado de trabalho europeu, queixamo-nos. Tarde! Devíamos ter actuado antes que o problema se instalasse. Devíamos ter actuado quando o problema foi denunciado evitando que o comércio deles crescesse com as nossas compras, obrigando-os a procurar respostas mais dignas. Mas foi mais fácil e confortável fingir cegueira. Agora chegou a factura e vai-nos ser cobrada.

 

Outro exemplo, é um país pobre como era Portugal antes do 25 de Abril de 1974, que de repente se vê com dinheiro para construir qualquer barbaridade e que apesar de existir liberdade, direito a voto, orçamentos participativos, e outros mecanismos que nos permitem participar das decisões politicas, a maioria preferiu viver a sua vidinha confortavelmente. É justo! Mas agora não se queixe!

 

Um argumento que se está a usar para justificar o abandono destas pessoas é que supostamente não se ajudaram os que necessitavam e pertencem à pátria. Pode até ser um argumento com alguma validade, se o país não tivesse rendimento mínimo e outras ajudas no género subsídio ou instituições que todos os dias saem à rua. Que funcionam com ajudas estatais e peditórios geridos bem ou mal, para ajudar estas pessoas. (Esse é outro tema “o do choradinho para conseguir dinheiro nos peditórios”, o chamado negócio da solidariedade).

 

Mas imaginemos que o país tinha abandonado mesmo os seus, e estava a abrir as portas aos pobres de fora: não devíamos então aproveitar a oportunidade para esticar a onda de solidariedade a todos em vez de condenar uns em função dos outros?

Digo eu, porque me parece mais humano e com mais lógica do que entrar em discussões onde nem os pobres de dentro, nem os de fora ganham nada.

Fico muito triste de ver gente a recorrer a este tipo de argumento que não ajuda ninguém.

 Fotos no ZHNoticias.

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Tenho estado atenta, e não apenas depois da publicação da foto do menino que jazia junto ao mar, estou atenta desde que começaram as notícias da onda dos primeiramente denominados “imigrantes”, depois “migrantes” e agora finalmente refugiados.

No início, até esta definição incorrecta para estas pessoas que se deslocam para cá, mostra as tentativas dos governos europeus de fugir do inevitável, deixando egoistamente o problema às costas dos países periféricos: Itália e Grécia, ...

 

António Guterres deu uma entrevista que esclarece a situação do fluxo destas pessoas que me pareceu muito importante. Ele diz que a grande maioria que chega trata-se de refugiados sírios, principalmente os que chegam à Grécia. Que é preciso organização para a chegada destas pessoas e diminuir-lhes o sofrimento enorme devido à situação precária em que se encontram, e dessa forma também permitir que as autoridades possam triar os que são refugiados e os que são imigrantes económicos. E no caso dos imigrantes económicos, cabe a cada país decidir o que fazer: integrar ou devolver aos países de origem. Sempre resguardando a dignidade humana, claro.

 

Ele também diz com alguma razão, que os terroristas são pessoas organizadas e com dinheiro, patrocinados por organizações ricas e não se arriscam em vão, num barco sujeito a afundar. Os terroristas entram pelas vias normais e cabe às autoridades fazer a correcta triagem.

 

Apesar de triste com a resposta tardia dos governos (que precisaram de pressão pública para reagir), de perceber que o medo está a paralisar e a contaminar uma parte dos cidadãos europeus, eu estou especialmente orgulhosa de ser Portuguesa e Europeia. É com orgulho que vejo como a sociedade civil europeia se tem organizado para fazer o que os governos se mostraram incapazes de fazer.

E é com orgulho que sinto que os mestres do abandono morrem, quando a união se instala.

A União Europeia existe na sociedade que a constitui e perceber isso é um alívio. Maus governos, não têm de fazer de nós, gente de pouca qualidade.

 

Tenho de dizer que apesar de quase nunca estar de acordo com os esquemas da Sra. Ângela Merkel, neste caso tenho de lhe aplaudir a coragem (apesar de algo tardia). Assim como a todos os governos que souberam mudar de opinião e agir.

 

Acho que devemos ajudar. Perante vidas em perigo devemos agir e discutir depois.

 

Isso não impede que veja na entrada de tanta gente no nosso território assim sem organização a possibilidade de perigos futuros. Espero que as autoridades não se desleixem no processo, para que a solidariedade não vire veneno para nós europeus.

 

Devemos ajudar, não há dúvida. Mas é preciso também enfrentar as causas do problema antes que se torne insustentável. Esta guerra de interesses que mata tem de ser travada. Isso é trabalho dos nossos governos e militares que têm os meios para actuar.

 

A sociedade civil, tanto quanto for possível tem de encontrar formas de integrar, porque o pior que pode acontecer é termos gente entre nós sem nada a perder que se sente hostilizada, e em grande número (é como semear a guerra que todos querem evitar).

 

E ficar atentos às atitudes dos líderes religiosos (e não só) que hoje não têm disponibilidade para abrigar a gente da sua cultura, mas que não hesitará amanhã se lhes der jeito em tentar colocá-los contra nós, se o permitirmos, como chama a atenção este texto de José Pedro Teixeira Fernandes. 

Humanos e solidários? Sim. Estúpidos e cegos? Jamais.

 

Aos que pretendem e podem ajudar, fica aqui o endereço da PAR (Paltaforma de Apoio aos Refugiados): http://www.refugiados.pt/