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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Onde está o livro de instruções para apanhar o autocarro ?

Autocarro.jpg

 

- Manel Pedro, até que enfim ! – Diz ela com um sorriso gozão, ao ver o marido chegar a casa.

- Não me digas nada. – Ele responde cansado. – Preciso tirar os sapatos e de um copo de água.

Ela serve-lhe a água. Fica calada e quieta a observar o companheiro, a procurar conforto para aquele cansaço. Ele vê que o jantar está na mesa e senta-se, abrindo o tacho para ver de que se trata. Ela junta-se a ele, na mesa e dá voz de liberdade à curiosidade:

- Ficaste a pé com o carro. Eu recebi a tua mensagem.  - Informa. - Mas afinal o que aconteceu?

- O carro desligou-se em andamento. Eu voltei a rodar a chave e ele pegou, mas andei um bocado e ele voltou a desligar-se. Eu para não estragar, resolvi parar. Liguei para o Lino, o mecânico.

- E o que é que ele te disse? – Pergunta ao mesmo tempo que se serve do frango estufado com cenoura e ervilhas acompanhado com esparguete.

 - Tem o seu negócio para alimentar! – “Óbvio”, pensa ela. – Disse-me que fiz bem em parar o carro antes que estrague mais e que não podia dizer mais nada até ver o carro. Mas pelo que eu descrevia, podia ser da Centralina.

- Ok! Ele não te costuma cobrar só por ver o carro. Isso da Centralina soa a muito caro.

- Sim. O Lino, ainda faz parte desses negociantes que acreditam, que a imagem tem de corresponder à conduta. Não estou a colocar em causa o senhor, o nosso dinheiro é que não estica Maé e os trabalhos de mecânica são caros.- Diz ele preocupado. – Mas isso ainda não é o pior da minha saga de hoje!

- Ai não?

- Não. Primeiro chega aqui. – Sussurra ele, fazendo um gesto de acolhimento e colocando a cara mais perto dela. Ela aproxima-se. Ele beija-a. Sorriem cúmplices. - Quando cheguei vinha com a cabeça em qualquer lado. - Justifica.

- Eu percebi. – E sorri-lhe. – Conta lá. O que é pior do que colocar o único carro no mecânico e ficar sem forma de fazer compras decentes nos próximos tempos?

- Compras decentes? – Pergunta com o sobrolho franzido.

- Sim. Não penses que eu vou andar a carregar 30 sacos em cada mão no autocarro. E tens de ter em conta que os autocarros têm as paragens longe dos supermercados. E o táxi? Muito caro. Só mesmo os turistas é que os podem usar.

- Lembras-te de cada coisa. Mas o meu problema de hoje envolve autocarros. Explica-me como é que se usam? – Diz ele com ar desorientado e indignado.

-Porquê? – Pergunta Maria Aerdna sem entender.

- Estou eu parado, na estrada nacional e o Lino diz-me para levar o carro para a oficina. Lembrei-me que temos o seguro de viagem e que o pagamos para estas coisas. Estou a procurar a carta verde e o telemóvel toca. – Põe um ar de quem não ficou nada satisfeito e leva uma garfada à boca. – Era o meu “senhor chefe”. Sempre oportuno, a perguntar-me de forma cínica. - "Assim me pareceu", pensa. - “Aconteceu alguma coisa Manel? Sabes que temos agora uma reunião para apresentação do projecto?”. – E faz uma voz fininha a tentar imitar o chefe. - Eu fiquei “piurço”. Não me prestou nenhuma assistência para executar o projecto, mas agora como vem o patrão já se preocupou. Ontem queria que eu lhe explicasse o projecto de quase 2 meses em menos de uma hora. Não se dá ao trabalho de dizer bom dia, mas ontem até por ti perguntou.

- Isso é o comportamento normal, dos chefes. Eu acho que até existe uma escola especial onde eles aprendem a ser todos iguais. – Ironiza. - Estavas à espera de ser um sortudo e calhar-te um líder?

- Bahhh! – E põe-lhe a língua de fora. – Voltando ao que estava a contar. Eu expliquei que me ia atrasar e porquê, mas como ele já conhecia o projecto que fosse começando. Respondeu um “Está bem, mas mantém o telefone desocupado”. “Sim”, pensei para os meus botões. Liguei para a seguradora. Estava a falar com a operadora e começa a dar sinal de entrada de chamada em espera. Vou verificar e adivinha quem era?

- O “senhor chefe”.

- “Oui, madame!”. – Diz com ar contrariado. – Ignoro a chamada e continuo a falar com a operadora, mas o stress já se instalou. Não ouço tudo o que me diz, passo ao piloto automático. Recordo que ela falou de um táxi, mas eu recusei. Tinha traçado um plano mental e com o stress, não aproveitei a oportunidade que ela me estava a dar de o ajustar. Faz parte do serviço de assistência em viagem da seguradora, assegurar o transporte para o sítio onde te dirigias.

- Não sabia. Mas também não utilizo um carro há tanto tempo que já não interessa.

- Chega o reboque e eu dei-lhe a direcção do mecânico. O senhor ainda me perguntou se eu o acompanhava, na altura nova chamada do meu chefe preocupado. - E faz um gesto com os dedos a imitar as aspas. – Eu recuso a oferta do senhor do reboque, na tentativa de não perder mais tempo. Sentia a pressão dissimulada daquelas chamadas. Eu é que estava a perder as horas de trabalho no ordenado, mas isso não o preocupava. Num dia normal nem me teria registado, mandava os recursos humanos tirar do meu ordenado e assunto resolvido. Mas hoje, ele precisava que eu fosse salvar a sua imagem junto do patrão.

- Será que os patrões não percebem? – Interrompe Maria Aerdna. - Estas jogadas de inocentes e dissimuladas não têm nada e prejudicam o rendimento dos empregados, que se sentem usados.

- Tens razão. Mas todos na cadeia hierárquica sabem que o pobre usado precisa do ordenado.

- Sim. É mais do que o ordenado, é esta necessidade de nos mantermos fiéis aos hábitos e rotinas que eles exploram. Não achas? – Pergunta ela com ar pensativo. -Afinal, todos aprendem. E se aprendes podes fazer mudanças.

- Não pensei no assunto nesses moldes. – Responde. – Mas deixa-me fazer-te uma pergunta e contar-te o resto.

- Ok! Queres café? – Ele assinala com a cabeça que sim e ela levanta-se e dirige-se à máquina de café. “Viva as cápsulas de café. Pena serem tão caras. Como correm as coisas, terei de colocar a máquina na internet à venda e rezar para que a comprem por um preço justo”.

- Maé, como é que fazes para utilizar o autocarro todos os dias?

Ela olha para ele por cima do ombro e franze o sobrolho, duvidando de ter percebido bem a pergunta.

- Não me olhes assim. Explica-me.

- Como é que eu utilizo o autocarro? – Repete para se certificar que entendeu correctamente a pergunta, vendo a expressão dele continuou. – Vou para a paragem e espero, entro, mostro o passe e sento-me até à paragem de saída. Não tem nenhuma ciência.

- Para ti. – Responde ele. – Para mim, foi mais difícil que fazer o exame de matemática do secundário. Pelo menos aí eu tinha umas luzes.

- Qual é a dificuldade? – Continua ela sem perceber o companheiro.

- Eu conto-te. Depois de ter deixado todas as oportunidades de chegar ao trabalho que me ofereceram para trás, só me restava ir de autocarro. Pensei: “Simples. A Maé e outro milhar fazem isto todos os dias”. O que eu não sabia é que existia um código secreto entre os utilizadores de autocarros.

- A que te referes?

- Ao manual de instruções! Primeiro, tive de perguntar num negócio de fruta onde passava o autocarro. A senhora indicou-me, porque não existia nada que o identificasse. E eu deduzi que nesse sítio existisse um cartaz, algo que me indicasse os percursos, e os horários. Mas …

- Nada. – Interrompe ela. – Já te percebi. Se não conheceres, não sabes o que fazer. Eu tive a mesma dificuldade ao início. Inclusive no site da empresa a informação não é muito intuitiva. Tive de ligar para lá. E não foi fácil que me respondessem a perguntas tão simples como: “onde ficam as paragens?”, “quais os passos para tirar o passe?”, etc... Só sabiam dar preços e horários, tipo mensagem gravada. Estive para desistir.

- Entendes-me? E depois vimos nas notícias que as empresas têm prejuízos. Claro! Não sabem chegar ao cliente. – Diz indignado. - Para ali fiquei à espera que passasse um autocarro. A rezar para que a lei de Murphy não desse mais sinais de vida. A pensar que com um pouco de sorte o primeiro autocarro que passasse ia para o meu serviço.

- Deves estar estoirado. – Diz preocupada. – Não ligaste para mim porquê?

- Sem carro o que podias fazer?

“Tem razão” pensa ela.

- Pouco ou nada. – Responde. – E como é que te resolveste?

- O meu chefe.

- Hã?!

- Sim voltou a ligar. Eu contei-lhe o que se passava. E ele mandou o Xico da manutenção buscar-me. À noite, pedi ao Xico para me deixar aqui. Depois tenho de agradecer.

- Foi simpático. – Diz ela num tom secreto. – Nós aqui a falarmos do senhor e ele é capaz de atitudes generosas.

- Sim. – “Precisava de mim”, pensou. - Vou-me preparar e dormir. Amanhã há mais.

- Boa noite. Descansa!