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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Ser mãe leva-nos a questionar o mundo, e começamos pelo NOSSO MUNDO!

Eu não tinha uma profissão listada na sociedade actual como importante. Fazia parte dessas profissões exercidas de forma quase invisível, e que a maioria não reconhece até que não tenha onde se entreter ao domingo à tarde: primeiro operadora de caixa, depois controladora de qualidade. Apesar da falta de título e de glamour, eu gostava do que fazia. Levantava-me de manhã com um sorriso no rosto, e vontade de ir cumprir a minha missão. Sentia que fazia a diferença. E cumpri-a por mais de uma década, e era reconhecida no ambiente onde me movia.

 

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Um dia engravidei. O meu filho nasceu. E tudo passou pelo crivo dos questionamentos. A minha vida anterior ao seu nascimento, não me permitia ser a Mãe que eu queria ser.

 

Apesar de não ganhar nenhuma fortuna tive de abdicar de parte dos meus rendimentos e reaprender a viver com o essencial.

Tive de enfrentar a política empresarial anti maternidade: “Ou te dedicas à empresa ou estás fora?” Assim de simples.

Tive de enfrentar a organização da sociedade, onde quem não trabalha como “escrava” para os bolsos de outros é inútil e muito preguiçosa (e apenas reduzi a metade o horário de trabalho, mesmo assim não escapei aos adjectivos menos elogiosos).

Passei de genial a besta para os outros, mas algo depois da tempestade inicial se acalmou dentro de mim, dando-me sinal que estava no caminho certo.

 

“O essencial é invisível aos olhos”esta pequena citação do livro “O Principezinho” de Antoine Saint- Exupéry, é muito conhecida, pouco compreendida e ainda menos colocada em prática.

 

Medimos o sucesso pelo que os outros vêm e não pelo que sentimos com isso, medimos felicidade pelo que acumulamos e não pelo nosso estado emocional, rejeitamos o que não entendemos porque não temos estrutura e tempo para o tornar compreensível, aceitamos o que venha traduzido nosso “idioma” mesmo que isso seja veneno puro (desde que seja de morte lenta, claro!), … Tudo porque não sabemos lidar com o essencial.

"Educar é mais difícil que ensinar, porque para ensinar você precisa saber, mas para Educar precisa SER." - QUINO no Blog "formaryemprender"

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O essencial transmite-se pelo contacto e com exemplos. Por isso é tão importante a presença dos pais na vida da cria ao início. A natureza foi sábia. Colocou a experiência dos adultos, a transmitir o essencial aos mais novos e jovens, para que estes cumpram o mesmo quando chegar a hora e o ciclo nunca se rompa.

O Homem acha-se inefável sabedor, mas até agora apenas pode contornar as leis da natureza, não mudá-las. Sempre que o tenta, o desastre acontece, mas continua sem aprender a lição.

E tem passado os últimos séculos a tentar mudar essa lei, ocupando os adultos a acumular e deixando os mais jovens sem os essenciais contactos e exemplos para que cresçam emocionalmente saudáveis.

Resultado: pessoas cada vez mais frágeis emocionalmente e um planeta a caminho da “certidão de óbito”.

 

Hoje, ao ler este texto do Blog “Antes que eles cresçam”, percebo que não sou única a achar que não tem de ser assim. E ainda bem. Renasce-me a esperança de um futuro melhor com mais valores transmitidos entre gerações, do que apenas transmissões de objectos e consumos que matam este planeta todos os dias.

 

Partilho convosco o texto:

 

“Quando eu trabalhava fora, na redação de uma revista de uma grande editora, e passava rapidinho pra deixar meu filho na escola antes de começar aquelas jornadas de 10 ou 12 horas (que se estendiam pra 16 ou até 18 nos fechamentos), tinha muita inveja (é, inveja mesmo) das mães que podiam ficar na porta da escolinha por mais um tempo, olhando seus pequenos brincar, batendo um papo com a professora para saber o que estava rolando e depois passavam na hora do almoço para buscá-los. E nas reuniões de pais contavam como é que eles chegavam da escola, todos sujos de terra, ou com uma flor na mão ou coisa assim. Talvez elas também tivessem inveja de mim, que em vez de estar de chinelinhos e um rabo de cavalo, ia de salto alto, maquiada, com uma bolsa bonita, direto pro trabalho. Ia para alguma reunião chata, sem muito sentido, que me mandavam para cobrir um chefe que estava ocupado. Também tinha inveja de quando elas contavam que na hora de dormir os filhos tinham falado isso ou aquilo, enquanto eu, de novo, estava revisando algum texto pela terceira vez ou correndo pra escolher uma foto para ilustrar tal matéria. Mas eu pensava: não tenho outra escolha, se eu não estivesse aqui, trabalhando loucamente, não poderia pagar a escola, o supermercado, a viagem de férias. E eu seguia em frente.

Sei que o trabalho realiza, sustenta e dá sentido à vida. E eu sempre tive orgulho do meu. Mas, naquela época, enquanto meu filho tinha 4 ou 5 anos, não conseguia achar que tinha algo mais importante do que passar mais tempo com ele, acompanhar o dever de casa, deixar ele me fazer de gato e sapato nas brincadeiras, almoçar junto. Precisava e queria trabalhar, mas não naquele ritmo. Mas, como a gente bem sabe, as empresas brasileiras estão se lixando para a importância de se exercer a maternidade como se deve. E meu chefe facilmente me chamava para uma reunião às seis da tarde, mesmo sabendo que meu filho ia pra cama às sete. Eu ia sem pensar muito, afinal, o sustento da casa dependia de mim e meu filho idem. E eu seguia em frente.

Até que um dia uma psicóloga me falou uma coisa radical. Pode ser bobagem de sessões de terapia, daquelas que eles jogam para ver se cola, pois já me disseram que fazem isso. Mas dessa vez colou. Ela disse: seu filho não é prioridade nem na sua vida, nem na do pai dele. Ele não é prioridade pra ninguém. E criança tem que ser prioridade na vida de ao menos um adulto. Como assim, se eu trabalhava para dar o melhor pra ele? Como assim, se eu passava dias enfurnada em um prédio pra garantir o futuro dele? Enfim, desse dia em diante, não consegui mais seguir em frente.

Comecei, então, a pensar no que faria para ter mais tempo com o Antonio. Tentei acordos no trabalho, de entrar mais tarde pra passar a manhã livre. Mas sempre tinha um projeto importante para fechar e vira e mexe acabava indo mais cedo. Ou estava tão cansada que acordava mais tarde. Depois combinei de ter um dia por mês livre, após os fechamentos que se prolongavam pela madrugada, mas meu pequeno estava tão estressado porque tinha ficado uma semana sem me ver que esses dias eram os piores, com choros, birras e muitas emoções à flor da pele. Fui tentando, tentando, até que me senti tão cansada que tive uma crise de stress. Parei de trabalhar por um tempo e, quando voltei, já não havia mais lugar para mim. Na empresa. Porque o tempo que eu tinha passado com meu filho durante a licença mostrou que tinha um lugar imenso a ser preenchido lá em casa. Tive outros convites de trabalho, mas já não tinha energia pra isso. Como fazer, então, para continuar o papel que a vida me obrigou – ou suplicou – para que eu desempenhasse? Percebi que dava pra viver com menos. Menos cobranças, menos stress, menos viagens de férias caras, menos sorvetes de R$ 10 a bola. Passávamos férias no sítio de algum amigo ou na casa da vovó, o que pro meu filho é o lugar melhor do mundo. Como jornalista (e acho mesmo essa profissão maravilhosa porque te coloca em contato com muita gente), acionei meus contatos, passei a fazer frilas e dar consultorias, no início. Logo de cara, ganhava metade do meu salário anterior. Mas já não tinha necessidade daqueles presentes que a gente se dá, dizendo “eu mereço, já que trabalho tanto”. Aqueles jantares caros, aquele sapato lindo, aquele vinho bacana pra você relaxar quando chega em casa, cansado, do trabalho. O meu “eu mereço” passou a ser, naquele primeiro momento, passear na praça com o Antonio, dormir mais cedo pra acordar na boa quando o despertador tocasse às seis da manhã, fazer um almoço gostoso em família, poder trazer um cachorrinho pra casa e deixar meu filho mais alegre. Vi que dava pra viver com pouco mais da metade do que eu ganhava antes. E nunca tínhamos vivido tão bem.

Eu já não precisava mais de babá também. E por isso pude economizar uma boa grana. Passei a fazer parte do trabalho doméstico, com a ajuda do Antonio, que eu fui educando pra não bagunçar tanto. Minha mãe vinha pra me ajudar quando eu tinha reunião ou um trabalho grande pra entregar. Renegociei o valor da pensão com meu ex-marido, já que agora seria eu a babá. De alguma maneira, eu confiava em algo acima e mais poderoso que eu. E essa ajuda veio em diversas formas, em todos os momentos que precisei. Não me preocupava mais em juntar dinheiro para comprar algo novo, mas em viver o presente. E o futuro foi tão bem que nem eu acreditava. Minha relação com o meu filho (e todas as minhas outras relações) mudou completamente. Se ele antes já não contava comigo para colocar pra dormir à noite, agora esperava ansiosamente a historinha e a oração na cama. Precisava de mim para a lição de casa e me esperava na porta da escola. Meu filho passou a me ver mais forte e mais inteira. Era assim que eu me sentia e, no primeiro Dia das Mães desse novo momento, meu presente foi um desenho inesquecível. Uma mulher com os cabelos cacheados (eu!) enfrentando um dragão com uma espada. Sem titubear. “Eu te amo, mamãe”. Estava escrito lá. Nunca tinha recebido nada assim. E nem preciso dizer o quanto chorei ao perceber que meu filho viu, ao jeito dele, a minha força em fazer exatamente o que minha natureza me mandava fazer. Sem a pressão da carreira, do carro novo ou da prestação da casa, que não são ordens da minha natureza, mas da natureza esquisita da sociedade em que vivemos, onde status e poder de consumo importam mais do que cuidar de uma criança e onde as mães não podem contar com quase nada para ajudá-las nessa tarefa tão essencial em nossos dias”. – Fabi Corrêa no Blog “Antes que eles cresçam”.