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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Sobre adaptação e integração em novas culturas! Testemunho IV – Andrea Abreu (parte I)

Emigrar de alguma forma é recomeçar.

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Existem muitas formas de viajar : os passeios na vila, as viagens diárias repetidas até à exaustão, a escapada de fim-de-semana, a viagem turística, e... a viagem além-fronteiras onde se permanece por longos períodos. Estou a experimentar vir e ficar.

As motivações foram muitas. Não foi algo decidido de um dia para o outro, foi uma decisão amadurecida no tempo.

 

A minha entrada nesta segunda década do séc. XXI, veio acompanhada de muitas mudanças. A primeira, a maior e a mais importante: fui mãe. Fomos pais. Esse facto sozinho fez-nos questionar tudo o resto: a forma como despendiamos o tempo, as ambições, os desejos, os sonhos, os percursos profissionais, a situação financeira (o mundo entrou “em crise” em 2008), os valores que nos eram fundamentais, a família, a política, e etc…

Durante os primeiros anos desta década sentiamo-nos numa encruzilhada entre “os pais” que era possível ser, e “os pais” que queríamos ser. E as duas coisas pareciam não ser compatíveis.

 

Tenho um defeito enorme para a sociedade actual, sofro de falta de ambição e vaidade. Pelo menos dessa ambição por possuir que é tão corriqueira nos dias de hoje, e essa necessidade de mostrar aos outros. As minhas vaidades e ambições passam por outros lados menos na moda. Talvez por estas duas características, a crise financeira não me atacou da mesma forma que a outras pessoas. As minhas dívidas resumiam-se à compra da casa. Nunca estoirei o cartão de crédito (escrevo e imagino o sacrilégio que deve parecer à maioria: alguém que não se “afundou” em créditos para mostrar o melhor carro, fazer as melhores viagens, …). Eu e o meu companheiro tínhamos empregos estáveis e a vida seguia.

Imagem do "Blog do Papai Cegonha".

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Quando o pequeno nasceu e eu o abracei pela primeira vez sozinha no hospital, eu soube que não queria ser a mãe que via as minhas colegas ser (obrigadas pelas circunstâncias). O tempo da licença de maternidade passou e voltei ao meu local de trabalho. Nesse dia, quando fui obrigada a deixar o meu filho na mão de gente estranha a chorar, soube que não ia aguentar aquela situação muito tempo. Soube que tudo tinha mudado. E que não havia como parar essa mudança.

 

No local de trabalho não demoraram a começar com a pressão para que eu deixasse a maternidade como segunda prioridade de vida. Se eu fosse um pouquinho mais frágil, a depressão ter-me-ia agarrado aí. Não pelas longas noites sem dormir, e todas as mudanças e trabalhos que é ser mãe pela primeira vez de um bebé, mas pela incompreensão social e pressão laboral.

 

Eu não tinha nenhuma experiência e por isso, a creche da minha terra pareceu-me o local apropriado. Não me sentia confortável com a falta da visita guiada pelas instalações, as portas que tapavam o que ocorria dentro das salas, a imposição de horários para levar e buscar o meu filho e a proibição de entrar no refeitório. E em pouco tempo o caldo entornou, quando chego fora da hora habitual para ir buscar o meu filho e me deparo com uma sala revirada (andavam em arrumações por causa de uma inspecção que sabiam que ia ocorrer. O que diz muito sobre o tipo de inspecções e a sua utilidade em Portugal) e uma funcionária sozinha visivelmente alterada aos berros com os bebés (meu filho incluído). Daí a dar-me conta de uma série de irregularidades e a tirar o meu filho, foi uma questão de dias.

A incompreensão no local de trabalho em relação à necessidade de dedicar mais tempo à família (e falo das horas extra e folgas trabalhadas, não do horário regular), foi como uma facada no fígado. Tinha-me dedicado de corpo e alma durante uma década, tinha dado mais do que me era pedido, porque inocentemente achava que quem dá, mais tarde recebe. Estava totalmente enganada. E a vida aproveitou várias ocasiões para me demonstrar que as trocas são muito mais frias e calculadas e quase nunca devidamente valorizadas. Essa atitude do local de trabalho acabou por ser o combustível que eu precisava para gritar “basta” e começar a mudar a minha forma de estar na vida e consequentemente a mudar o rumo da minha vida.

 

Como no meu emprego não me deixaram nenhuma solução tal foi a intransigência, eu peguei nos livros sobre leis laborais (ainda bem que gosto tanto de ler, porque são muito "chatos") e vasculhei-os à procura de uma qualquer solução. E encontrei-a. Reduzi o horário de trabalho a metade, e escolhi um horário que fosse compatível com estar sempre um de nós em casa com o pequeno. A empresa não tinha fundamento legal para recusar o meu pedido.

Isso trouxe consequências: o “assédio moral” no local de trabalho. Mas eu já estava à espera dele.

 

Assim ficava durante a semana com o pequeno, e ao fim de semana eu enfrentava jornadas de trabalho de 10h, enquanto o pequeno ficava com o pai. Essa situação, também me reduziu o ordenado a metade, e isso teve impacto nas finanças familiares.

A minha família é pequena e não é rica, mas ajudou-me como pode! E tenho de lhes agradecer o resto da vida.

 

Quando finalmente as coisas começaram a rolar e encontrei uma creche à medida das minhas exigências (a AHMA), o pequeno já tinha 2 anos e meio.

Imagem do site "Pense fora da caixa".

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O meu companheiro era sondado pelo patrão para ir para o estrangeiro, trabalhar noutras filiais. As primeiras propostas eram para o Brasil e Angola e apesar de não “nadarmos” em dinheiro, achamos melhor recusar, era muita distância para um pai e um filho. Depois as propostas foram-se aproximando geograficamente e finalmente chegou uma proposta para França.

Pareceu-nos bem: viajar entre França e Portugal é relativamente barato e fácil, e a empresa facilitou a proposta ao oferecer viagens periódicas. Aceitamos. Pela experiência, pelo dinheiro, pelas possibilidades que poderia abrir.

 

Mas, o meu pai pouco tempo depois ficou doente: cancro esofágico.

A dada altura, eu estava sozinha com um bebé, o dinheiro apesar de tudo era “contadinho” (eu tive de continuar com horário e salário reduzido), um pai doente e uma avó velhinha.

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O meu pai não sobreviveu muito tempo, e a sua morte foi cruel e dura, porque era o meu pai, um pilar, um porto seguro, e por vê-lo sofrer tanto. Sofrimento que ele tentava disfarçar. Mas só não se dava conta quem fosse cego, surdo e mudo: a perda de peso, os olhos tristes, o cambalear, a incapacidade de engolir até um gole de água, … E eu assistia a tudo, tentando responder a todos (dizer “não posso” aos que amo é muito difícil. Outro defeito!). E senti uma incapacidade da qual não me orgulho, de querer ajudar o meu pai e não saber como. Vi o sistema nacional de saúde para o qual ele contribui honestamente mais de 40 anos, deixá-lo moribundo. Senti uma frieza que não pensei ser possível num serviço de apoio e assistência a pessoas com cancro (tanta campanha e imagem bonita na comunicação social, e não senti nada disso no contacto directo com as instituições, pelo contrário a sensação de abandono e falta de informação era constante). Senti que ele tinha sido escolhido para ser deixado perecer. E não fui capaz de o ajudar.

 

Não é este país que quero deixar ao meu filho. Não é este mundo, que ele merece.

 

Com a morte do meu pai, e com o meu marido em França, a lógica venceu. A única coisa que me prendia ao país passou a ser uma avó, que apesar de velhinha ainda é independente e está acompanhada pelas irmãs e por uma vizinhança incrível, dessas que podem ser consideradas património imaterial da humanidade de tão raras.

Organizei, mais ou menos as coisas e vim viver para França. País que já tinha acolhido nos anos 70 parte da minha família materna, que fugiu da pobreza extrema e principalmente da falta de liberdade. 

Apesar de um cenário mais moderno e diferente, a verdade é que a história se repetiu. 

 

Vim confiante. Achei que os 2 anos que tive de Francês no ciclo me servissem de alguma coisa. O facto de falar algo de inglês e espanhol, poderia ajudar. Que o facto de conhecer algumas frases básicas em francês, me possibilitaria a comunicação. Conhecer relatos de familiares e amigos acerca do país poderia facilitar a adaptação. E já tinha visitado o país na qualidade de turista noutras ocasiões, por isso não me ia ser estranho. Não estava a mudar para Marte, e sim para algo que “conhecia”.

 

Se calhar foi mais fácil para mim por essas razões todas. Ou não! Mas não deixou de ser um desafio duro que ainda tento vencer...

 

Continuação...

 

Para ler também a segunda parte do testemunho de Andrea Abreu (França), clique aqui.

Para ler também o testemunho da Elena Oliveira (Venezuela-Portugal), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Ana Leão (Canadà), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Carla Tavares (Alemanha), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Carla Vieira (Alemanha e França), clique aqui.