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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Sobre adaptação e integração em novas culturas! Testemunho IV – Andrea Abreu (parte II)

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 Cheguei num voo nocturno, com o meu filho adormecido. Chegamos de madrugada, à que seria agora a nossa casa. Acordamos entusiasmados, apesar do cansaço dos últimos dias. Tudo era novidade: desde as paredes que nos protegiam até às escovas de dentes que iriamos usar. De Portugal veio muito pouca coisa.

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Os primeiros dias foram puro turismo. Conhecer a simpática vila que agora ia ser "a nossa vila", conhecer os arredores, saber onde fazer as compras, ir ao médico, onde ficam os correios, a escola, os serviços e etc… Estas actividades ocuparam os primeiros dias, sem preocupações de maior.

A vila é muito bonita. Tem um ou outro edifício com mais de 2 andares, mas na grande maioria são casas ajardinadas. Jardins não faltam, estamos na Normandia. Os principais serviços estão organizados de forma centralizada, facilitando a vida a pé, sem necessidade de recorrer a um carro (menos uma despesa e ganha o ambiente!). As ruas centrais são essencialmente pedonais. Existe um importante investimento cultural para animação da vila e dessa forma trazer clientes aos comerciantes locais, e ajudar a fixar os habitantes a estas terras do Norte.

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No início, tudo me pareceu fantástico. Tinha tradutor pessoal (o marido), não tinha horários a cumprir, e a vila ia-se mostrando encantadora a cada pormenor. O meu filho estava entusiasmado com as novidades, e muito feliz por estar a viver, outra vez, com o pai.

Apesar de ter chegado em pleno mês de Agosto e as temperaturas serem muito agradáveis, a verdade é que choveu todos os dias.

 

A vida a entrar no seu ritmo, e a novidade a deixar de o ser, as rotinas instalaram-se e as dificuldades apareceram.

Com o meu tradutor pessoal ocupado com as suas tarefas profissionais e eu sem conhecer ninguém, percebi logo que vale muito pouco os conhecimentos de línguas estrangeiras (aquilo de que "com o inglês te safas sempre" é treta. Pode ser que assim seja, entre os altos quadros das grandes empresas, mas na vida rotineira do dia a dia de pessoas normais, não serve para quase nada). E que as poucas frases que eu conhecia em francês servem para um desenrasque turístico, mas no dia-a-dia é preciso mais. Muito mais.

 

Em pouco tempo, percebi que a adaptação ia ser um desafio maior do que aquele que eu havia calculado. Entendi, porque é que existe uma fuga de habitantes do norte em direcção ao sul da França: o clima. E muitas outras coisas.

 

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 Para além do idioma, o outro impacto é o clima. A Normandia é linda com os seus jardins, o verde constante, o cheiro a flores, e tem um dos céus mais bonitos que já vi na vida, mas o preço é um clima chuvoso, frio e húmido. A humidade no inverno é algo difícil de ultrapassar. As temperaturas chegam a ser negativas. Eu não trouxe roupa para ultrapassar essa situação, e a prioridade é o mais pequeno, o que tornou este inverno um dos mais difíceis de ultrapassar da minha vida. E é verdade, que as casas são aquecidas, mas isso representa custos e não são pequenos. Receber uma factura de 300€ de electricidade para pagar no inverno é algo muito fácil e ao qual eu não estava habituada. Por isso, qualquer presença dos raios de Sol é aproveitada pelos nativos destas terras nos parques, nas ruas, nos jardins, …. Parecemos caracóis a sair da casca, quando o Sol se faz presente.

 

Outra diferença impactante: recebemos salários maiores, mas a vida é mais cara. Muito mais cara. E se reclamamos de impostos em Portugal, aqui pomos o grito no céu. Pagam-se muitos impostos e são altos. Comprar peixe, uma coisa habitual e corriqueira em Portugal, aqui é um luxo. Apesar de a Normandia ser uma zona de campanha (campo), onde esbarrar numa vaca é fácil, a carne também é cara (mas de excelente qualidade). Em geral, um cabaz de compras básicas aqui fica mais caro que em Portugal, por isso optar pelos produtos da época não é uma escolha é quase uma obrigação.

 

Sente-se a falta dos cafés/pastelaria (o ponto de encontro aqui são as casas dos conhecidos ou as associações, não existe o hábito de sair para tomar o cafezinho). Aqui existem as pastelarias onde nem sempre se pode tomar café, e quando se pode tem de ser em pé.

Ao início, estranhei o pão. Não encontrava pão fresco tipo papo-seco, que é tão corriqueiro em Portugal. Vamos à Padaria e pedimos um pão: “Un pain, s’il vous plaît” e trazem-nos uma baguete um pouco maior que o “normal”.

Que horror! Nunca me vou habituar a isto”, pensava eu.

Imagem do site "Le Petit Duc"

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Na pastelaria, os franceses são verdadeiros artistas. As montras de bolos são de babar, de tão bonitas.

 

E as diferenças vão aparecendo à medida que se vai tendo contacto com os diversos serviços que fazem parte da rotina diária de qualquer cidadão.

 

Ir ao Banco em Portugal para abrir uma conta, implica algumas assinaturas meia dúzia de papéis e pronto “conta aberta”. Voltar ao Banco é coisa rara, porque através da net e das atm’s consegue-se fazer quase tudo. Por aqui não é bem assim. Enfrentamos os inevitáveis problemas de comunicação pela diferença de idiomas com o gerente de conta (e não vale de nada o inglês ou o espanhol. Os franceses não se entendem com idiomas estrangeiros, usem gravata ou não, e nem se esforçam sequer). Abrir uma conta obriga à assinatura de verdadeiras “bíblias”. Que obviamente não compreendemos (diferença de idiomas), mas trazemos cópias para casa (DICA: nos contractos podemos pedir uma cópia traduzida para o nosso idioma e em caso de conflito, o que consta no traduzido é que valerá em tribunal. É válido para contractos de trabalho). Mas as visitas ao banco não terminam aí, passamos a vida no Banco. As atm’s são limitadíssimas. Cobram taxas “altas” por usarmos estas máquinas de outra rede que não seja a do banco. O netbank parece talhado na idade da pedra. O uso de cheque (e as burlas associadas a este meio de pagamento) ainda é largamente usado por este território.

 

A net é muito mais barata e mais rápida que em Portugal, mas falha muito. Por isso, entendo a falta de investimento das empresas francesas nesta área.

 

Outro problema com que me deparei foi com a orientação (obrigado ao senhor que inventou o GPS). Os engenheiros de tráfego franceses deixam muito a desejar: falta de placas com direcção, ou permissão de poder circular com velocidade em cima de curvas, são erros facilmente encontrados. Talvez porque é no “campo”, se desleixem mais (apesar de que o trânsito em Paris é uma coisa assustadora!). No início, era muito confuso saber onde andava, eu não fazia ideia para que lado ficava o norte. Em Portugal se me falassem em Coimbra ou Aradas, eu sabia para que lado ficava. Aqui, além de os nomes das vilas não me soarem a nada, não fazia a mínima ideia para que lado é que devia seguir.

 

Manter uma conversa com os franceses resultou ser muito difícil. Eles não fazem nenhum esforço para tentar compreender e ajudar a que a comunicação se estabeleça. Para eles eu é que vim, então eu sou a que tem de se esforçar.

 

Sempre tive os franceses como um povo muito educado. Estava com uma ideia errada e muito idealizada. Eles são excelentes actores de rituais. O que mais me irrita é a mania dos beijos. No meio da estrada param para cumprimentar com dois beijinhos (quatro para os mais antigos), e não faz mal quem venha atrás. No corredor do supermercado, a mesma coisa, não importa que alguém esteja 5 minutos à espera para passar, ou chegar aquelas bolachas que estão no exacto sítio em que resolveram socializar. No estreito corredor da escola é uma luta diária para deixar os pequenos na sala com tantos beijinhos. Ir a um jantar, temos de ir com muito tempo disponível: primeiro porque eles saboreiam o jantar durante horas com os aperitivos, as entradas, o prato, os queijos, a sobremesa e o café e, porque é preciso cumprimentar todos com o “famoso” beijinho quando se chega e quando se vai. Já me aconteceu demorar mais de meia hora só com as despedidas.

Mas apesar desta mania dos beijinhos entre conhecidos, o acolhimento a desconhecidos é frio e descortês. Por exemplo, numa sala de espera em Portugal quando entramos dizemos “Bom dia” e as pessoas respondem. Podem usar sussurros, mas no geral respondem. Aqui entra-se numa sala de espera, e no geral a resposta a um “Bonjour” é o silêncio. A sua indelicadeza pode ser tão grande, que me aconteceu ter feito um favor a uma senhora, obviamente sem lhe cobrar, e hoje passa por mim e nem "bonjour" me dirige. Deixou de me conhecer. Não são todos assim, mas no geral são pessoas inseguras e frias no contacto com estranhos.

Esta frieza comigo que era uma estranha e a dificuldade em fazer-me compreender, fez com que a adaptação inicial fosse dura. O que me salvou foi que não estava sozinha. E claro, quando a solidão apertou o recurso à net, foi um balsamo.

 

Outro problema era a questão da saúde. Eu sou há mais de 10 anos seguida pelo médico, devido ao tratamento que faço para controlar os sintomas da Doença de Crohn. Como é que iria fazer para continuar, aqui em França? Em Portugal, pedi várias vezes ao médico que me seguia para me fazer os relatórios para apresentar aqui e fui sempre ignorada. Mas, acabou por não ser um problema. Sou seguida, e estou abrangida pela comparticipação 100% em todos os tratamentos que se relacionem com a doença. Mesmo com dificuldades de comunicação, foi possível organizar tudo o que era importante.

 

E no sector da saúde, existem abismos entre o nosso país e França. O primeiro, é que esperei 2 anos por uma colonoscopia com anestesia em Portugal, e aqui foi marcada de um dia para o outro. Outro é entrar no hospital e não ver a sala de espera cheia de gente, e quando se fala com as funcionárias do hospital elas demonstrarem simpatia e disponibilidade, coisa que é rara nos serviços de saúde portugueses. Mas acho que em termos de qualidade médica, os portugueses são muito melhores mas com menos meios de diagnóstico.

As farmácias têm um serviço excelente, mesmo para pessoas que não falam muito bem o francês. Existe um esforço para garantir que a informação acerca do medicamento foi bem passada, apesar de que ainda se usam as receitas com “letra de médico”. Em Portugal, este serviço também é no geral de qualidade.

O sistema de reembolsos da “Assurance Maladie” funciona muita bem. Apesar de que pagamos as consultas (no caso de incapacidade financeira também assegura os cuidados médicos através da IRSA), a “Assurance Maladie” reembolsa-nos o valor depois retendo o valor mínimo: 1€ p/ consulta. O mesmo ocorre com os medicamentos e tratamentos, dependendo da percentagem a que tenhamos direito.

 

Na educação, sente-se diferença. Aqui a educação é gratuita. Realmente gratuita: não compramos manuais, não compramos lápis e canetas, e é dada uma ajuda para que os pequenos possam praticar actividades desportivas, para além da aula de educação física e piscina que a escola oferece.

Neste momento a França encontra-se numa altura de mudança curricular e isso está a gerar muitas discussões no sector. Os pais têm realmente um papel a desempenhar na escola e a eleição dos representantes é uma coisa séria. Por outro lado ainda têm um longo caminho a percorrer na área do combate ao “bullying”. O assunto està presente na escola e os professores ainda não lidam com isso da melhor forma e os pais pior ainda, preferindo ignorar e dizendo disparates como “é normal”. Tenho-me debatido nessa luta de mostrar que não é “nada normal”, e que ainda é menos normal os adultos acharem “normal”.

Já introduziram o ensino do inglês na primária, mas ainda respeitam os ciclos biológicos dos pequenos estudantes, existe uma preocupação real e efectiva para não os sobrecarregar de actividades e deixarem-lhes tempo livre para serem apenas crianças.

 

Uma coisa que me surpreendeu e para a qual ainda não estou preparada: deixar os pequenos irem sozinhos para a escola. Crianças com os seus 9/10 anos (e até talvez menos) vão sozinhas para a escola. A polícia é uma presença que se sente nas ruas, principalmente nos horários em que os pequenos vão e vêm da escola, ou nos parques nos períodos em que são mais usados. Mesmo assim, não sinto maturidade no meu filho para me atrever a deixá-lo ir sozinho. Mas é uma coisa que já não se vê em Portugal, crianças a crescer independentes e a responsabilizarem-se pela sua hora de chegar à escola.

Poderia continuar a enumerar diferenças, mas acho que já ficou ilustrado.

 

Neste momento, o idioma ainda tem muitos mistérios para descobrir. Já consigo manter uma conversação entendível, mas com frases do género: “Eu levar o pequena à escola.” Ainda é muito fácil para mim, cair em erros de concordância de género, ou usar os verbos todos no infinitivo. As expressões que se usam corriqueiramente em qualquer idioma, quase sem darmos por ela, para mim são ratoeiras em que caio constantemente. Faço apontamentos mentais, para verificar mais tarde se o que me disseram, quer dizer mesmo aquilo que entendi. Mas já faço as minhas rotinas diárias sozinha sem dificuldades de maior relevo, inclusive visitas ao médico (levo apontado o mais importante e peço ao médico que me aponte o mais importante para evitar erros).

 

Para aprender a língua francesa, ouvi-la é muito importante. Usar a Tv acesa (com a vantagem de termos cerca de 20 canais em Tv aberta com os programas que em Portugal estão na Tv paga, e tudo "dobrado" em francês) e ouvir música é vital.

Video do canal youtube "LouaneOfficielVEVO". Esta cantora tem muito boa dialéctica.

A fonética é tramada e só ouvindo e praticando é que se aprende. Eu recorri muitas vezes aos desenhos animados, que são feitos para iniciar as crianças na arte de falar, e isso ajudou-me a mim e ao meu filho (para os mais pequenos acaba por ser mais fácil, porque o cérebro está numa fase de absorção de informação e não têm os preconceitos que nós adultos, por mais liberais que sejamos, acabamos por ter). Somos presença assídua da Biblioteca da vila e ler ajuda muito (principalmente a entender alguns sons e expressões que quando os ouvimos apenas falados, não soam a nada). Agora com o pequeno a iniciar a primária, aprende a mãe e o filho.

 

Emigrar é revirar todas as ideias pré-concebidas, é reaprender a falar, é reaprender a socializar, perceber que falar outro idioma é muito mais que fazer traduções, é preciso entender algo da sua cultura para entender e usar as suas expressões, é re informar-se, é reaprender a reconhecer instituições públicas e como funcionam, é voltar a conhecer pessoas, é recomeçar.

 

Se não é recomeçar do zero, é quase! Mas também é enriquecer-se culturalmente de uma forma que nenhuma escola, universidade, biblioteca no mundo ou programa de tv e computador é capaz!

 

Para os que tenham curiosidade em conhecer a vida na Normandia, recomendo que assistam o filme "A Família Bélier"A acção decorre em terras da Normandia e vai passando pelos principais costumes e paisagens da região, ao mesmo tempo que conta a história de uma família (Bélier) de surdos. Cuja única integrante da família com voz, é dona daquela VOZ. O conflito da história é sobre até onde alguém com limitações pode impedir o outro de ser independente e brilhar. Deixo o trailer legendado:

 Video no canal do youtube "Cinesystem Cinemas".

Sites úteis para os emigrantes em França:

Consulado Geral de Portugal em Paris: http://www.consuladoportugalparis.com/

Site da República Francesa e as suas instituições: http://www.gouvernement.fr/

Site de procura de emprego: http://www.pole-emploi.fr/accueil/

Site da segurança social (acesso à saúde): http://www.ameli.fr/

Site do Apoio Social: https://www.caf.fr/

 

Para ler também a primeira parte do testemunho de Andrea Abreu (França), clique aqui.

Para ler também o testemunho da Elena Oliveira (Venezuela-Portugal), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Ana Leão (Canadà), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Carla Tavares (Alemanha), clique aqui. 

Para ler também o testemunho da Carla Vieira (Alemanha e França), clique aqui.