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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aborto e a discussão que continua...

Tenho acompanhado a discussão social que ocorre na Argentina por estas datas para que o aborto seja despenalizado. Esta semana, os que estão a favor da despenalização nessa nação(o que não quer dizer que estejam disposto a abortar, é importante aclarar) viram a ideia passar na camara de deputados. Trata-se de uma pequena vitória. Mas, ainda falta mais um passo da burocracia para que esta lei passe no senado daquele país.

 

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 Apesar de eu viver numa zona do planeta onde a discussão já foi feita, as leis colocadas em prática com algum sucesso e com as aberturas necessárias às correcções que tiverem de ser feitas, resolvi mesmo assim fazer uma reflexão sobre o assunto.

 

Tal como fez el señor Mujica quando era Presidente do Uruguai e levou essa discussão à sua sociedade, quero esclarecer que a VIDA é Suprema e em condições ideais não devia ser sequer objecto de discussão.

 

Como mulher, nunca me vi nesse lugar, mas numa hipotética situação que me levasse a considerá-lo, com certeza gostaria de pelo menos ter opções  e apoios. E isso é o que não existe para as mulheres que se vêem obrigadas a considerar essa opção nos países onde o aborto é proibido.

 

Eu tenho um problema com o proibido, porque quase sempre o proibido nega a existência da situação e por isso não cria condições para a corrigir. Ao criar-se leis, criam-se também condições de combate às situações que levam as mulheres a optar por essa “solução”. E coloco entre aspas a palavra “solução” porque imagino que na realidade não seja uma solução apenas é uma forma de não piorar ainda mais a realidade.

 

Qual é a  razão porque falo desta forma de “solução para não piorar ainda mais a realidade”?

Faz cerca de um ano que me mudei para a vizinhança de um orfanato. Estes meninos frequentam a escola do meu filho e a meu convite também frequentam a minha casa. E é tão difícil ver tanta criança mendigar amor, vê-los esconder-se numa capa de agressividade para evitarem ser amados e não voltarem a sentir a dor da perda, ver tanto abandono. Eu pergunto-me “Porquê?”.

 

Acredito que algumas situações possam ser inesperadas e nesses casos evitar estes abandonos seja praticamente impossível, mas acredito que muitos destes casos podiam ter sido melhor geridos desde o começo: fosse evitando que mulheres que não têm dom para a maternidade tivessem os filhos indesejados, fosse que mulheres afectadas por traumas de maus-tratos e violações tivessem os seus filhos sem o devido acompanhamento psicológico que garantisse que teriam estofo emocional para o desafio extra que é ser mãe quando se está emocionalmente abalada, seja porque depois de detectada uma malformação decidem que não têm como enfrentar essa realidade que as vai afectar uma vida inteira, etc…

Os números de mulheres que morrem por abortos clandestinos é assustador (e como se trata de algo proibido nem tudo se sabe). São vidas que se perdem, são mães que deixam crianças órfãs porque se viram na encruzilhada de escolher entre cuidar com alguma dignidade os filhos já existentes ou ter mais uma boca que não podem alimentar. Etc…

Sejamos realistas, os homens têm feito um progresso enorme no que toca ao seu papel social e familiar, mas a verdade é que ainda anda por aí muito “macho” que acha que a mulher é mercadoria, que não lhe interessa a forma como partilha a intimidade desde que seja satisfeito, que falta ao respeito passando doenças venéreas de uma mulher a outra em total impunidade porque o papel social assim lhe permite, que se esconde atrás do álcool e deixa que as esposas façam das tripas coração para criar os filhos sozinhas, algumas mulheres têm o infortúnio de ter filhos e o esposo-filho para carregar também, etc…

 

Reconheço às religiões um papel de educadores sociais que é importante porque têm o poder de chegar a todos sejam ricos ou pobres, ignorantes ou cultos, grandes ou pequenos, mas a verdade é que esse papel não tem sido bem cumprido ao longo de séculos e uma das principais prejudicadas é a mulher. À mulher cabe na maioria das vezes fazer malabarismo entre a realidade que vive e aquilo que é ditado como socialmente aceite e isso leva a encruzilhadas de vida muito complicadas, algumas são escolher entre fazer ou não um aborto.

 

Depois temos os Estados, órgãos públicos e sociais que todos alimentamos de forma a que equilibrem as desigualdades  (o seu real papel é esse) mas que talvez pelo tamanho que têm de alcançar se vêm constantemente de frente com falhas e neste campo não é excepção:

  • Os sistemas de adoptação não funcionam como deveriam (vejam por exemplo, os casos de tráfico humano que se vive nos ditos países desenvolvidos que ainda há pouco viu a Inglaterra ser acusada de fazer disso um negócio e os indícios eram fortes fossem ou não verdade).
  • A educação sexual é ignorada para não ferir susceptibilidades sociais, mesmo que aumente exponencialmente as possibilidades de vermos jovens e adultos a enfrentar-se a essa dolorosa escolha.
  • A sociedade que defende a vida é a mesma que depois trata os indivíduos como mercadorias transaccionáveis. Os pais são donos dos filhos, os maridos donos das esposas, os governos donos das pessoas e quase tudo se resume a como posso lucrar com isto.
  • São poucas e ineficazes as medidas para diminuir e eliminar a violência doméstica, de género, o bullying etc… Por exemplo, vejo as pessoas falar muito no bullying escolar mas depois falamos com os professores porque o nosso filho se queixou que foi empurrado e a resposta é “são coisas de rapazes” (Really!?).
  • Etc…

Estas falhas têm campo fértil no maravilhoso mundo do “Proibido”, porque se negamos que existe um problema não precisamos de trabalhar em soluções para ele. A questão é que normalmente um problema ignorado tende a crescer demasiado dificultando cada dia mais a sua solução. Por isso é tão importante discutir e, onde o assunto já foi discutido de vez em quando é preciso relembrá-lo para que os olhares façam um exame do que foi feito e do que precisa de ser ainda melhorado e claro evitar que o esquecimento crie raízes e nos leve outra vez no caminho da marcha-atrás (este mundo anda muito virado para essa mudança ultimamente, juro que sinto escalafrios).

 

Apesar desta realidade que é transversal a quase todas as nações deste mundo a verdade é que não se pode ignorar que o aborto é uma resposta violenta que coloca em causa a vida. Então discutamos a vida e o seu valor.

 

O que é a vida?

 

Consideramos uma vida a partir do momento da concepção?

Ou consideramos uma vida apenas a partir do momento em que ela toma consciência de si mesma?

 

Estas têm sido as duas grandes questões que se têm levantado na maioria das discussões sociais dos diferentes países que eu tenho acompanhado.  E na minha opinião são as duas válidas.  

Se são as duas válidas como é que se sai desse imbróglio, perguntam vocês?

Pelo menos aqueles que não têm necessidade de se prender a uma ideia fixa com medo de deixarem de saber quem são, vão sentir a necessidade de reflectir sobre estas duas questões que se levantaram em quase todos os lugares onde a discussão se produziu.

 

Vou colocar então, mais lenha na fogueira.

Numa altura em que os direitos dos animais também são tão discutidos, não nos devemos perguntar se é válido matá-los para comer? Tratam-se de vidas conscientes também (quem tem animais de estimação sabe do que falo, consegue perceber que os seus animais aprendem a comportar-se, que têm personalidades diferentes entre si, etc.. . o facto de aprenderem que não se faz xixi no meio da cozinha já pressupõe a existência de uma consciência no meu entender).

E as plantinhas que comemos não são também células vivas? Creio que não têm consciência, mas nós matamo-las para as colocar no prato.

 

Qual é afinal a nossa medida de vida?

 

Compliquemos a coisa um pouquinho mais. Imaginem a situação seguinte:

O vosso filho está pendurado num penhasco com um amiguinho que vocês não conhecem. Você tem o braço direito completamente destroçado, por isso, apenas tem uma mão disponível para resgatar um dos meninos que estão na iminência de cair. Reza para que dê tempo para salvar os dois, mas sabe que tem de escolher quem salva primeiro porque a possibilidade de perder o segundo é real. Qual vida vai escolher salvar primeiro?

 

Complicado. A consciência provavelmente vai torturar o resto da vida se essa escolha não for bem feita e se o azar ajudar a que a sorte não permita que os dois sejam salvos.

 

Estar vivo e manter-se vivo (física e emocionalmente) implica sempre fazer escolhas e nem todas são muito justas. Também nos cabe a nós criar ferramentas que nos permitam que essas escolhas sejam o mais perto do justo possível, porque apenas assim esta sobrevivência a que chamamos VIDA se pode aproximar daquilo que tanto almejamos: a felicidade (esse estado interior tão complicado de alcançar e entender mas que é mais invejado que o dinheiro apesar de não nos darmos conta).

Por isso, criamos uma cadeia de alimentação, onde a vida de plantas e animais é sacrificada para que a nossa existência seja possível e enquanto não for inventado uma forma melhor, esse sacrifício vai continuar a existir, sejamos ou não conscientes dele.

 

E não devemos também perder de vista de que da mesma forma que a consciência nos pode torturar porque tivemos de escolher entre o nosso filho e o amiguinho, o mais provável é que a cabeça de uma mulher que aborta seja povoada de “e se…” o resto da vida.

 

Por tudo o que exponho e muito mais, fica evidente que apesar de não achar que o aborto é a resposta sou a favor da despenalização porque, a verdade é que ele existe e muitas mulheres se vêm nessa posição horrível de ter de escolher entre trazer mais uma criança ao mundo para sofrer ou, sacrificar-se a si mesma e à sua consciência para evitar complicar não só a sua vida mas também a de um ser indefeso que não tem culpa da realidade que rodeia essa mulher.

 

Se a VIDA nos preocupa assim tanto, façamos o exercício de olhar as realidades que são alheias à nossa e talvez imaginarmos o que faríamos nesse lugar, porque são essas hipotéticas soluções que podem ajudar a desenhar uma SOLUÇÃO MAIOR que nos sirva a todos.

Enquanto isso não ocorre o melhor é deixar de ignorar a realidade e despenalizar o aborto de forma a deixarmos de somar mais um drama à vida de quem a tem já tão difícil quando se chega a ver nessa posição.

 

 

Claro que não podemos NUNCA esquecer que a despenalização por si só também não é solução e é preciso investimento social para que as mulheres nessa situação sejam devidamente acompanhadas e a todas as outras sejam dadas condições e ferramentas para que nunca tenham de cair na necessidade de ter de colocar essa hipótese.

 

A Europa tem feito um Bom Trabalho nesse aspecto. Pode ser melhorado? Claro que sim, mas já deu passos gigantes.

 

Sinto-me bem por ser mulher e saber que conto com opções caso algo me aconteça, apesar de ser consciente e responsável o suficiente para ter uma conduta que me permita manter essa realidade tão afastada quanto possível. Mas, eu sou do grupo das sortudas no que a isso toca, porque nasci onde as condições existem e estão disponíveis a todos e recebi a educação sexual e social que me permite entender os limites dos comportamentos de risco.

 

Quais são os ditos comportamentos de risco que podem ser geridos por nós mesmos:

  • O sexo sem protecção;
  • Parceiros totalmente desconhecidos;
  • O uso de substâncias que alteram a consciência,
  • Etc…

Mas existem realidades que nos fogem totalmente do controlo:

  • Famílias disfuncionais;
  • Violações e maus-tratos;
  • Malformação genética;
  • Condições financeiras conjugadas com baixa auto-estima e situação familiar pouco favorável;
  • Falta de instinto maternal;
  • Etc…

O aborto não é a resposta ideal, mas ela existe e não pode ser ignorada, até que se encontrem melhores respostas. E uma mulher fragilizada pela realidade tem de poder contar com acompanhamento e não continuar  ser abandonada na clandestinidade que não resolve e apenas piora.