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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Qual é o preço da corrupção?

Mesmo sem querermos, nós estamos expostos ao termo “corrupção” o tempo todo. Se lemos um jornal, com certeza vai aparecer um caso de corrupção. Se vemos um telejornal, uma boa parte da emissão será sobre algum tipo de corrupção. Quando precisamos de uma consulta no hospital e vemos que o tempo de espera é enorme, acabamos por ceder à ideia de dar aquele jeitinho, e depois ficamos a pensar por que será que o tempo de espera era tão grande, quando o jeitinho encurta a espera substancialmente.

Activa ou passivamente, a corrupção está presente, mas temos verdadeira consciência do preço que pagamos por ela?

Talvez por que o caso continua a ser julgado, apesar dos sete anos que passaram desde a trágica noite de 27 de Janeiro de 2013, eu acabei por tropeçar, um destes dias, em um dos muitos documentários que se fizeram da noite em que 245 pessoas, maioritariamente jovens, morreram num incêndio na boate Kiss (ter em conta que estes números são arredondados, porque existe diferentes dados, nas diferentes fontes).

Hoje em dia, há muito material na internet sobre este caso que ocorreu na cidade universitária de Santa Maria, no sul do Brasil, numa noite que deveria ter sido de festa. Eu fui vendo esse material e percebendo como a tragédia poderia ter sido menor ou até apenas um pequeno incidente, se cada um tivesse cumprido a sua parte.

Resumidamente, o que é do conhecimento público:

 

  • Nessa noite a capacidade da discoteca, que era de 691 pessoas, segundo os bombeiros, tinha sido ultrapassada em cerca de 300 pessoas. Um local aberto ao público com apenas uma saída oficial e cerca de 1000 pessoas, que provavelmente consumiram álcool, para sair dali o mais rápido possível.

 

  • Na trágica madrugada, actuava uma banda no palco principal, que era conhecida por agregar ao espectáculo material pirotécnico, mas ninguém se lembrou de verificar se isso seria seguro dentro daquele espaço (apesar da imensidade de notícias de acidentes com este tipo de material). Afinal, o importante é a festa!

 

  • As licenças necessárias para que o local pudesse continuar a abrir ao público, estavam vencidas. Os pedidos de renovação repousavam sobre a secretária de algum departamento dedicado às burocracias desta vida. Sem falarmos, do histórico de licenças que nunca existiram ou que foram concedidas de forma irregular, como concluiu a polícia que investigou o caso.

No dia 5 de Dezembro de 2014, o Ministério Público (MP) denunciou 43 pessoas por falsidade ideológica e falso testemunho. Essas denúncias tiveram como base o inquérito policial que investigou a falsificação de assinaturas e outros documentos para permitir a abertura da boate junto à prefeitura. Em aditamento à denúncia feita em 2013, os sócios da boate também foram acusados do mesmo crime.” – in G1

  • Obras foram feitas sem nenhum controle e por pessoas não especializadas, apesar de ser um espaço aberto a uma grande quantidade de público jovem e consumidor de substâncias que alteram a normal resposta do corpo humano.

 

  • O extintor, que poderia ter feito toda a diferença na hora em que começou o incêndio, estava lá apenas para inglês ver, porque estava descarregado. Deixando em evidência que não havia nenhum cuidado ou rotina para se assegurarem de que estava tudo em ordem, no que tocava à segurança.

 

  • Não havia uma equipa de funcionários e seguranças, treinados para responder no caso de algum incidente acontecer.

 

  • Também ficou exposto que a verba destinada à compra de equipamentos para as funções dos bombeiros da cidade, tinha sido investida em itens de lazer.

 

  • Não havia um plano de emergência, para este tipo de casos, apesar de não ser o primeiro da história. Podemos citar dois casos argentinos que ilustram, que poderia ter sido previsto e montada uma estratégia que facilitasse a gestão da crise, que foi caótica apesar dos esforços, de todos os que tentaram responder e ajudar: o club Kheyvis em 1993 e mais tarde, no ano de 2004, no club Cromañon.


De acordo com os testemunhos, nessa noite com a casa cheia, enquanto fazia o seu show, o vocalista da banda acendeu o artefacto pirotécnico que lançou fagulhas no tecto do estabelecimento. O tecto estava revestido por uma espuma com fins acústicos, colocada por um dos funcionários da boate, a pedido do patrão que já tinha um par de queixas por causa do barulho.
Esta espuma começou a arder e a derreter sobre os presentes, o que acabou por chamar a atenção de alguns. No meio da diversão e do barulho, o pânico dos primeiros a aperceberem-se do problema demorou a lançar o alarme. O empregado que tinha tentado extinguir o incêndio com o extintor descarregado, acabou por desistir e anunciar que estava na hora de evacuar. Porém, os seguranças na entrada não ouviram e não foram avisados, o que os levou a impedir a saída dos primeiros jovens, levando a que um verdadeiro tampão humano se formasse numa das duas únicas saídas possíveis.
O fumo tóxico, libertado pela combustão da espuma, espalhou-se rapidamente e as hipóteses de sair dali com vida, diminuíram rapidamente. Os bombeiros chegaram, com pouco equipamento e pouco treino. Os hospitais excederam a capacidade rapidamente. Os médicos levaram um tempo precioso a tentar entender o que estava a acontecer, porque estavam a chegar pessoas a falar e andar pelas próprias pernas, que acabavam por morrer pouco depois.
O caos tomou conta de tudo, apesar dos esforços sobre-humanos de alguns para tentar responder o melhor que podiam com o que tinham.

Resultado, foram 245 pessoas mortas (mais ou menos o número que excedia a capacidade permitida naquele lugar). Não podemos esquecer que foram 245 famílias afectadas, também. Para não falar dos 630 feridos, que apesar de sobreviverem, vivem hoje com um trauma sem tamanho.

Depois desta tragédia, os responsáveis do estabelecimento vieram a público dizer que não queriam a morte, mas parece-me que isso não os desresponsabiliza de que existiam regras mínimas que eles não asseguraram e tinham a obrigação de o ter feito.

As licenças não estavam em ordem e isso é responsabilidade das autoridades. Contudo quem abre um negócio, tem a obrigação de se assegurar que conhece as regras que tem de cumprir. Se não quer ter esse trabalho, deve pagar a alguém que o faça. Mas pagar, não iliba o empresário de responsabilidade. Por isso, no caso das licenças, a responsabilidade é compartida.

Como cidadãos que pagam taxas e impostos, devemos exigir que pelo menos a justiça cobre dos órgãos a quem sustentamos, a sua irresponsabilidade.

Até agora, parece que ninguém dos que poderiam ter evitado a tragédia, foi ainda responsabilizado por isso. Em contrapartida, um dos bombeiros responsáveis pela resposta à tragédia foi condenado à prisão. É verdade, que ele não deveria ter permitido que civis entrassem na boate para ajudar a resgatar possíveis sobreviventes, porém naquelas circunstâncias, sem toda a ajuda necessária, sem equipamento e perante uma tragédia para a qual não tinha sido preparado, o que poderia fazer? Deixar morrer sem fazer nada, só para não ser responsabilizado depois?
Ele foi responsabilizado pelo erro, e não está incorrecto. Contudo o que se espera é uma justiça funcional, que não se aplique apenas a alguns. Quando vemos o bombeiro condenado e os empresários ainda a driblar a justiça, percebemos como o sistema está corrompido.

Afinal, o empresário veio a público dizer que não tinha intenção de matar ninguém e temos de acreditar nele, é pouco provável que esse fosse o seu objectivo. Eles têm conseguido adiar a justiça, apesar de serem as figuras que recebiam as compensações económicas pelo funcionamento do estabelecimento e por isso eram responsáveis de tudo o que por aí ocorria.

Os empresários, no mínimo, devem assegurar-se de honrar as licenças que os Estados (diga-se povo) lhes confiam e assegurar-se de que todas as regras são cumpridas, para depois tirar o benefício da exploração do negócio. É o mínimo que se deve exigir a alguém que explora recursos naturais, espaços, estruturas públicas como electricidade ou água e a mão-de-obra de uma nação: que pague os impostos, taxas e salários devidos a esses benefícios e assegure que as regras legais são cumpridas. Quando eles não o fizerem, a justiça, em nome de todos, deve responsabilizar de acordo ao tamanho da falta.

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A justiça deveria ser justa para todos e não apenas para os que não podem driblar os sistemas. Afinal, o bombeiro chamado do nada para responder à tragédia, também é pouco provável que tenha tido intenção de matar, e a justiça para ele apurou-se rapidinho.

Qual é a grande diferença? A capacidade de corromper as regras de cada um. Primeiro corrompe-se para ter um lugar a gerar dinheiro pelo menor esforço e investimento possível, depois corrompe-se pagando a gente que conhece os meandros das regras e usa-las a favor do jogo do adiamento, até à prescrição do crime.

O caso da boate Kiss, é apenas um exemplo, que está cheio de pequenas e grandes corrupções com as quais convivemos e naturalizamos sem dar por ela, esquecendo que pagamos com cerca de mil vidas o que ocorreu num só estabelecimento, uma "azarada" noite. Entre mortos, feridos e pessoas que se viram afectadas o preço foi muito alto, mas continuamos a não aprender. E ficamos a jogar aos corruptos ou a fazer de conta que não vemos, pelo menos até ao próximo Kiss, Cromañon ou Kheyvis.

Continuamos a escrever nas leis que é preciso pagar umas taxas e uns impostos, para assegurar um serviço de fiscalização que depois não se faz, porque é mais importante ir comer a um restaurante chique com o empresário x. Sim, não se choquem, mas existem pessoas que assinam o que for por um almoço, sem contabilizar que a sua assinatura pode ser a condena dos próximos mil, que tiverem o azar de se cruzar num mau dia com a falta de fiscalização e a corrupção generalizada.

Quando ouvirmos falar de corrupção, devemos começar a contabilizar o preço que isso realmente nos custa. Ninguém quer ser acordado de madrugada, porque os filhos foram apanhados num incêndio que poderia ter sido evitado por uma fiscalização eficaz. Ninguém quer ir trabalhar e ter um acidente, porque o patrão poupou uns trocos e pagou uns almoços a cargos chave das administrações públicas. Ninguém quer ir a um hospital e ficar sem se curar, porque em vez de medicamentos o dinheiro pagou conferências em ilhas paradisíacas que poderiam ter sido transmitidas por uma Live...

E isso só vai deixar de ocorrer, se tomarmos consciência do preço que pagamos e começarmos a recusar esse pagamento, deixando de contribuir activa ou passivamente para essa conduta. Como? Primeiro, aprendendo a identificar o nosso pequeno papel e depois estudando formas de não o seguir.