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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Educar para a "não violência". Como?

Com uma criança de 10 anos em casa, eu vejo-me muitas vezes presa à questão: como educar para que ele não seja mais um promotor de violência?

A primeira resposta é automática: não ser um mau exemplo. E isso parece-me bem mas, insuficiente quando ele aparece em casa a contar-nos que o menino empurrou, o menino beliscou, a menina ofendeu, a menina roubou, ....

Como o ensinar a não ser um atacante e ao mesmo tempo ensinar-lo a defender-se? Soa complicado, porque se lhe digo “não batas nos meninos”, depois não posso pedir-lhe que responda a uma agressão, com outra agressão. Seria criar uma confusão na sua cabeça. Mas, este modelo é recorrentemente utilizado por educadores do mundo inteiro. É um modelo com os limites pouco claros e isso é sempre fonte de problemas a médio prazo, no campo que toca a educação (e não só).

Nos últimos tempos, talvez porque se aproxima a fase da adolescência por estas bandas, o assunto preocupou-me ao ponto de começar a analisar como é que nos relacionamos com este assunto. E a verdade, é que na maioria dos casos, desde que não nos toque directamente, estamos em pleno estado de indeferença.

A exposição constante a situações de violência, parece que nos criou uma certa apatia e até uma sensação de normalidade. Ligamos a tv, assistimos a uma hora de telejornais repletos de situações de guerra e logo ignoramos tudo o que está a acontecer para continuar com a nossa pacata vida.

Os mais pequenos, não estão expostos a conteúdos muito diferentes. Uma hora de desenhos animados e coloridos, disfarçam gritos constantes e efeitos de golpes a todo o momento. Só que nós, os adultos, já vemos a televisão em modo apático, nos nossos intervalos entre responsabilidades, os pequenos não. Eles assistem e logo a seguir imitam, porque é na repetição dos exemplos disponíveis que eles constroem a sua forma de estar em sociedade. O velho “olha para o que te digo e não para o que faço”, é na realidade um desejo longe da realidade, porque as pessoas seguem e repetem atitudes (e ainda mais, quando repetidos no tempo sem consequências imediatas).

Isto leva-me a outra questão, ou melhor, a outro erro cometido desde os primórdios pelo o menos informado dos pais e o mais preparado dos professores: dizemos “não” sem mostrarmos/apontarmos as alternativas.

Somo animais comunicativos, mas estamos a comunicar cada vez menos e de pior forma. E quando me refiro a comunicar, falo dessa viagem entre emissor e receptor, em que um partilha informação e o outro escuta, depois reflecte e trocam de lugar até chegarem a um consenso (mesmo que o consenso seja, que não estão de acordo). Hoje em dia, todos falam mas, muito poucos se prestam ao papel de ouvintes. Ainda bem, que nos sobra inteligência para detectar o problema e começarmos a corrigir. Numa tentativa, de talvez quebrar os constantes ciclos de Guerra e Paz que escrevem a história da Humanidade.

Ensinamos as nossas crianças, como se elas nascessem com algum tipo de perfeição que as impedissem de sentir raiva, frustação, ódio, inveja, ... Preparamo-las para serem constantemente felizes e para viverem a vida como se o mundo não mudasse.  Ignoramos esses momentos onde a felicidade se esconde de nós momentaneamente, condenando as nossas crianças a não saber o que fazer quando essas emoções, humanas e naturais, os assaltam. Principalmente, quando elas descubrem que o mundo para o qual estavam a ser preparadas, já não existe e terão de se adaptar.

Se o meu filho chega a casa, a contar que o menino o empurrou, o mais natural é dizer-lhe para não responder ou para fazer queixa à professora. Mas o pessoal docente, por vezes ignora estas chamadas de atenção, feitas pelas crianças, chegando a apelidá-las de "queixinhas". Já recebi por resposta de uma professora “que é natural que entre crianças se batam, de vez em quando”. Depois dos meus três primeiros segundos de choque, tive de rispostar “que é normal que eles tenham essas atitudes, estão a aprender, o que não é normal, é um adulto achar normal e não intervir”. Depois vim para casa a pensar: “para que intervenha, é preciso saber como e provavelmente a senhora gastou tanto tempo a decorar a tabuada, que não lhe sobrou tempo para aprender a fazer o resto”. E eu sei que é um pensamento desprovido de beleza, mas tenho de encontrar uma qualquer explicação para a sua inação e assim continuar a confiar o meu filho todos os dias, aos seus critérios educativos.

A educação de uma criança, não está limitada a uma figura, ela é trabalho de toda uma sociedade, que vai intervindo nos diferentes aspectos e em diferentes alturas da sua formação. Todos somos responsáveis.

Neste ambiente, onde os media nos oferecem violência disfarçada de cool e com uma estrutura social de gente que não está preparada para intervir, o mais natural é que as crianças cresçam com o duplo discurso “faz o que eu digo e não o que eu faço”, bem aprendido. E não é preciso mais nada, para normalizar más acções que não devem ser proferidas e jamais discutidas. 

"Dizemos a todos que está mal usar a violência, mas quando nos tocar a nós, resolvemos tudo com uma bofetada bem dada." Será que é só a mim que este discurso incomoda?

O menino bate, e como ele bateu primeiro, o argumento passa a ser carta branca para responder na mesma moeda. Isso está errado e é uma porta escancarada para um ciclo de violência, sem fim. Então, acho que é urgente começarmos a ensinar as nossas crianças a lidar com os conflitos, tal como nos formam em alguns locais de trabalho, por exemplo.

Talvez ...

Em vez de nos limitarmos a dizer “não se bate nos meninos”, os tenhamos de ensinar a lidar com as situações, dando-lhes um guião de atitudes concretas. Começar por ensiná-los a conhecer o poder de cada uma das suas emoções, pode ser um bom ínicio.

“Estás frustado?”: vai chorar, afasta-te um momento dos outros, vai à casa de banho e grita, canta, ... Dar-lhes alternativas viáveis para que vivam a emoção e não a enclausurem até perderem o domínio sobre ela (ao ponto de explodirem por qualquer coisa).

“O colega empurrou-me”: analisa-o. Se vires que foi sem querer ignora-o ou mostra-lhe que o seu gesto te magoou de forma gentil. Se percebes que foi na brincadeira, fá-lo saber que não foi do teu agrado, de uma forma séria mas, nunca agressiva. Claramente que foi com má intenção, afasta-te e assim que possível avisa um adulto (mesmo que nesse momento o adulto não faça nada, vai ficar de sobreaviso e a criança vai sentir que não está sozinha a enfrentar a situação).

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“A professora mandou um recado, porque eu bati no meu colega”. Nenhum pai quer lidar com isto, mas talvez algum dia o terá de fazer. Antes de gritar "estás de castigo" ou até mesmo antes de ler o “bendito” recado, perguntem à criança “o que é que aconteceu?”. Deixem-no falar, entendam o "porquê" e o "como" tudo se desenrolou, porque o mais provável é ele ter recorrido à violência por sentir que não era escutado. Se virem que a vossa raiva vai tomar conta do momento, peçam-lhe para ir para o quarto e prometam-lhe que depois falarão mais tarde. E falem mesmo. Castiguem-no, mas apontem-lhe o erro e qual devia ter sido a conduta correcta. Deixem-no perceber que apesar de os seus actos terem consequências no imediato, confiam que ele no futuro vai corrigir o erro e actuar de outra forma. Sentir que alguém confia em nós, principalmente se se trata de alguém especial para nós, é um dos motivadores mais potentes que conheço.

São só três exemplos, que não custam muito a implementar mas, que demorarão a trazer frutos, porque toda a estrutura está apodrecida. Por algo se começa, não se pode é continuar a ignorar e a usar a velha e ferrugenta desculpa de que “foi sempre assim”. O mais provável é que nunca tenha mudado, porque nunca se tentou a receita certa. Teremos de continuar a tentar. E todos somos responsáveis por isso: pais, amigos, educadores, vizinhos, ...

Se todos o praticarem, aos poucos até os media se sentirão pressionados a ajustar os conteúdos ao novo público, porque não são eles que nos fazem a nós, eles apenas alimentam o que mais lhe deixarmos à disposição para exploração.