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Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

Aerdna no Mundo?

A definição da palavra "mundo", não é restrita. A minha preferida, engloba os vàrios conjuntos de realidades concretas e imaginadas. Aqui veremos o mundo pela escrita de Aerdna.

ENCERRADO AOS 10 ANOS...

Para que o conheçam um pouco, conto-vos que o meu filho de 10 anos tem um verbo preferido, o verbo esperar. Aqui em casa tudo começa com um “espera”.

– Anda comer. – digo eu.

– Espera. – recebo de resposta.

– Vai tomar banho. – peço.

– Espera. – recebo de resposta.

– Faz os deveres.

– Espera.

Conseguem imaginar? Por aí também é assim?

Eu posso-vos assegurar que três semanas depois do início do confinamento, o verbo esperar continua saudável e muito utilizado nesta casa. Dá algum jeito, saber esperar nesta altura de incertezas.

Na realidade, pouca coisa mudou por aqui. Ele deixou de sair para ir à escola e já não nos acompanha em situações como ir ao supermercado ou à farmácia. As rotinas mudaram de forma mas, não se alteraram muito.

Antes levantava-se às oito horas para se arranjar e ir para a escola, agora levanta-se e arranja-se para ir para o computador ver e fazer os trabalhos que a professora enviou. As manhãs são dedicadas à escola.

As tardes ficaram livres de estudos formais, mas como vivo fora de Portugal e ele é um cidadão português que vive além fronteiras, qualquer ocasião é boa para trabalhar a língua portuguesa. É muito fácil perder sensibilidade com a nossa língua materna, quando estamos expostos a outros falares e isso preocupa-me muito.

O único contacto dele com o nosso idioma sou eu e o pai. Como não conto com muitos livros em língua portuguesa aqui em casa, vamos dando uso e re-uso aos que há. Aproveitamos esta obrigatoriedade de estar em casa, para criar a rotina de ler um capítulo de um livro, por dia. Fazemos-lo a seguir ao almoço, onde a energia ainda não está em níveis baixos o suficiente para tornar tudo demasiado pesado e chato.

Neste momento, eu estou a reler “As pupilas do senhor reitor” de Júlio Dinis e ele está a conhecer a história pela primeira vez. Confesso que não recordava a riqueza do vocabulário da obra e que me perguntei se seria produtivo lê-la com uma criança de 10 anos. O verbo esperar está presente, porque é preciso parar muitas vezes para desvendar o significado de uma palavra ou de uma expressão. Para evitar que deixe de ter sentido, depois das explicações, voltasse a reler. Há tempo.

Ele já participa nas tarefas da casa, tais como ajudar a cozinhar, pôr a mesa, varrer, etc... Mas, aproveitando o tempo disponível, dei-lhe a tarefa mais adiada da humanidade, separar os brinquedos que já não servem, dos que já não usa para dar a outros meninos. Ele é muito apegado, porque tudo lhe invoca uma memória afectiva mas, parece que desta vez vai acontecer.

Enquanto o meu marido passa o dia no computador a executar as suas tarefas laborais, eu dedicado-lhes a tarde. Para o peque é hora de liberdade total. Aos 10 anos estar sozinho com dois adultos, já não é muito divertido. Aí chega a hora da tv, do youtube e depois de uns dias de confinamento, chegou o grupo de whatsapp. Vigiado é claro, mas foi uma forma de o manter em contacto com os amigos. Assim ele pode falar, rir, trocar conteúdos e queixar-se um pouco de como a mãe é chata. Agora além do habitual barulho do motor do frigorífico ou o bip da máquina a anunciar que acabou a lavagem, temos um constante aviso de que chegou mensagens. Isso levou um ajustamento no horário de utilização do aparelho, mas sem stress.

Eu moro a uma hora do meu local de trabalho. Habitualmente, duas horas diárias da minha vida são passadas dentro de um carro. Quando nos mudamos para cá, já sabíamos que isso ia acontecer. As pessoas perguntam-me porque não penso mudar-me para mais perto e poupar esse tempo. Trata-se realmente de muito tempo! Mas, a vida ensinou-me que não se pode ter tudo, então é preciso priorizar o mais importante para nós e abrir mão do resto. Se eu antes respondia que estava bem assim, agora afirmo-o convicta. O facto de morar longe, faz com que eu possa viver num local sossegado, rodeado de espaço verde e nesta altura tem sido vital.

Os passeios, apesar de curtos, são vitais para a nossa sanidade, tanto física como mental. E andamos meios esquecidos, mas todos sabemos que não é só o covid-19 que mata, o stress por exemplo tem as suas vítimas garantidas.

Com os dias de sol a fazerem-se presentes com cada vez mais frequência, fica difícil manter prisioneira uma criança de 10 anos. É preciso gastar energia. E como nesta casa, não há meninos da mesma idade que aguentem correr quinhentas horas à volta de um sofá, a solução é sair para correr ou ir revezando com o pai para jogarmos com ele, no pequeno jardim.

Depois de passadas estas três semanas e tendo em conta que os meus vizinhos também estão confinados nas mesmas condições que nós, temos permitido que os pequenos joguem um com o outro. Cada um no seu jardim, sempre a lembrar que é preciso manter distâncias. De todas as formas a bola anda de um lado para o outro e ambos a agarram com as mãos. Isso preocupa-me, mas confesso que não quero ficar paranóica. Batalho para que as mãos sejam lavadas e reforço sempre que possível as directrizes a seguir nesta altura: lavar as mãos e evitar levar as mãos à cara. Mas, ele só tem 10 anos e não posso exigir que entenda o que muito boa gente com curso universitário ainda não entendeu. Então, limito sem proibir.

Eu tenho a convicção que é mais importante que ele entenda o porquê das coisas, mesmo que tenha de repetir mil vezes, do que simplesmente proibir. Proibir é tentar libertar-se da responsabilidade, sem criar soluções. É fácil proibir, mas se o outro não entende a razão da proibição, ele vai continuar a gerar soluções para a contornar. Se queremos evitar uma situação, não podemos seguir a receita dos preguiçosos e devemos batalhar para que o sentido dessa proibição fique claro.

E quem já cresceu ao som do «fazes porque foi eu que mandei», sabe que isso só funciona na fachada. Com certeza, depois de ouvir isso a sua mente começou a girar para encontrar uma solução de fazer, sem que o que mandou tenha conhecimento. Então, proibimos para evitar que a pessoa entre num problema e só conseguimos que ela nos retire da equação. Dessa forma, pensamos que já não é nossa responsabilidade, mas estamos enganados.

Permitir que os pequenos joguem no jardim por cima das cercas, é minha responsabilidade e do meu vizinho. É um risco que assumi correr, tentando minimiza-lo o melhor que os meus conhecimentos permitem.

Não se sabe até quando estaremos nesta situação, apesar de tudo apontar que pelo menos até ao mês que vem, as rotinas actuais serão mantidas. Talvez, a nova indicação da OMS para alargar o uso das máscaras, venha a permitir uma retoma mais rápida das antigas rotinas. Na realidade, espero duas coisas :

* em primeiro que não se limitem a obrigar ao uso da máscara e expliquem que por exemplo os olhos não ficam protegidos, que não se deve tocar com as mãos no tecido, ... resumindo que façam campanhas para que o uso das ditas seja realmente uma mais valia e não mais lixo gerado como o que temos visto nos parques dos supermercados, por exemplo. Se é coisa que sobra neste mundo, é lixo.

* e em segundo, não gostaria que voltemos à rotina anterior. Eu sei, que mudar uma sociedade que vive desta forma há mais de um século, não é tarefa para dois meses, mas poderíamos tentar. Sempre achamos que a culpa é dos governos, mas na realidade eles são apenas uma parte do problema a outra somos nós. Se não consumirmos tanta porcaria, não é preciso tanta indústria ou camiões nas estradas, e isso permitiria menos impacto no ambiente e menos pragas geradas por essas mudanças. Vendo as circunstâncias de outras pandemias históricas, as mudanças climáticas aparecem sempre referenciadas. Fiz esse exercício com documentários mais antigos, para evitar que estivessem «contaminados» com as teorias que circulam agora.

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Claro que a subida dos preços vai afectar a nossa qualidade de vida e até colocar-nos em situações complicadas, mas talvez sirva para aprendermos a priorizar melhor os nossos consumos. (Ok! Se olharmos para a crise de 2008, percebemos que não aprendemos nada, mas de esperança não se morre).

 

Protejam-se e ajudem a proteger os outros. Em vez de dizer fiquem em casa, porque para muitos é uma impossibilidade, peço que sejam conscientes e responsáveis. Fiquem Bem!

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